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terça-feira, 13 de setembro de 2011

Educar para a celebração da vida e da Terra



Os analistas mais sérios da pegada ecológica da Terra nos advertem que se não cuidarmos, podemos conhecer catástrofes piores do que aquelas vividas em 2011 no Brasil e no Japão. Para se garantir, a Terra poderá, talvez, ter que reduzir sua biosfera, eliminando espécies e milhões de seres humanos.

Leonardo Boff

Dada a crise generalizada que vivemos atualmente, toda e qualquer educação deve incluir o cuidado para com tudo o que existe e vive. Sem o cuidado, não garantiremos uma sustentabilidade que permita o planeta manter sua vitalidade, os ecossistemas, seu equilíbrio e a nossa civilização, seu futuro. Somos educados para o pensamento crítico e criativo, visando uma profissão e um bom nivel de vida, mas nos olvidamos de educar para a responsabilidade e o cuidado para com o futuro comum da Terra e da Humanidade. Uma educação que não incluir o cuidado se mostra alienada e até irresponsável.

Os analistas mais sérios da pegada ecológica da Terra nos advertem que se não cuidarmos, podemos conhecer catástrofes piores do que aquelas vividas em 2011 no Brasil e no Japão. Para se garantir, a Terra poderá, talvez, ter que reduzir sua biosfera, eliminando espécies e milhões de seres humanos.

Entre tantas excelências, próprias do conceito do cuidado, quero enfatizar duas que interessam à nova educação: a integração do globo terrestre em nosso imaginário cotidiano e o encantamento pelo mistério da existência.

Quando contemplamos o planeta Terra a partir do espaço exterior, surge em nós um sentimento de reverência diante de nossa única Casa Comum. Somos insepráveis da Terra, formamos um todo com ela. Sentimos que devemos amá-la e cuidá-la para que nos possa oferecer tudo o que precisamos para continuar a viver.

A segunda excelência do cuidado como atitude ética e forma de amor é o encantamento que irrompe em nós pela emergência mais espetacular e bela que jamais existiu no mundo que é o milagre, melhor, o mistério da existência de cada pessoa humana individual. Os sistemas, as instituições, as ciências, as técnicas e as escolas não possuem o que cada pessoa humana possui: consciência, amorosidade, cuidado, criatividade, solidariedade, compaixão e sentimento de pertença a um Todo maior que nos sustenta e anima, realidades que constituem o nosso Profundo.

Seguramente não somos o centro do universo. Mas somos aqueles seres, portadores de consciência e de inteligência. pelos quais o próprio Universo se pensa, se conscientiza e se vê a si mesmo em sua esplêndida complexidade e beleza. Somos o universo e a Terra que chegaram a sentir, a pensar, a amar e a venerar. Essa é nossa dignidade que deve ser interiorizada e que deve imbuir cada pessoa da nova era planetária.

Devemos nos sentir orgulhosos de poder desempenhar essa missão para a Terra e para todo o universo. Somente cumprimos com esta missão se cuidarmos de nós mesmos, dos outros e de cada ser que aqui habita.

Talvez poucos expressaram melhor estes nobres sentimentos do que o exímio músico e também poeta Pablo Casals. Num discurso na ONU nos idos dos anos 80 dirigia-se à Assembléia Geral pensando nas crianças como o futuro da nova humanidade. Essa mensagem vale também para todos nós, os adultos. Dizia ele:

A criança precisa saber que ela própria é um milagre, saber, que desde o início do mundo, jamais houve uma criança igual a ela e que, em todo o futuro, jamais aparecerá outra criança como ela. Cada criança é algo único, do início ao final dos tempos. E assim a criança assume uma responsabilidade ao confessar: é verdade, sou um milagre. Sou um milagre do mesmo modo que uma árvore é um milagre. E sendo um milagre, poderia eu fazer o mal? Não. Pois sou um milagre. Posso dizer Deus ou a Natureza, ou Deus-Natureza. Pouco importa. O que importa é que eu sou um milagre feito por Deus e feito pela Natureza. Poderia eu matar alguém? Não. Não posso. Ou então, um outro ser humano que também é um milagre como eu, poderia ele me matar? Acredito que o que estou dizendo às crianças, pode ajudar a fazer surgir um outro modo de pensar o mundo e a vida. O mundo de hoje é mau; sim, é um mundo mau. E o mundo é mau porque não falamos assim às crianças do jeito que estou falando agora e do jeito que elas precisam que lhes falemos. Então o mundo não terá mais razões para ser mau.

Aqui se revela grande realismo: cada realidade, especialmente, a humana é única e preciosa mas, ao mesmo tempo, vivemos num mundo conflitivo, contraditório e com aspectos terrificantes. Mesmo assim, há que se confiar na força da semente. Ela é cheia de vida. Cada criança que nasce é uma semente de um mundo que pode ser melhor. Por isso, vale ter esperança. Um paciente de um hospital psiquiátricoque visitei, escreveu, em pirografia, numa tabuleta que ma deu de presente:”Sempre que nasce uma criança é sinal de que Deus ainda acredita no ser humano”. Nada mais é necessário dizer, pois nestas palavras se encerra todo o sentido de nossa esperança face aos males e às tragédias deste mundo.

Leonardo Boff é teólogo e escritor.

Havia alternativa? Chomsky revisita o 11 de Setembro



A resposta ao 11 de Setembro, um ataque maciço a uma população muçulmana, conduziu os Estados Unidos à 'armadilha diabólica' estendida por Bin Laden. O resultado foi que Washington continuou a ser o único aliado indispensável de Bin Laden, mesmo após a sua morte. Gastos militares grotescamente aumentados e dependência da dívida... pode ser o mais pernicioso legado do homem que pensou que poderia derrotar os Estados Unidos. O artigo é de Noam Chomsky.

Noam Chomsky

Estamos a aproximar-nos do 10º aniversário das horrendas atrocidades do 11 de setembro de 2001, que, como se diz habitualmente, mudaram o mundo. No dia 1° de Maio deste ano, o presumível mentor do crime, Osama Bin Laden, foi assassinado no Paquistão por um comando militar de elite dos EUA, os SEALs da Marinha, depois de ter sido capturado, desarmado e indefeso, na Operação Geronimo.

Uma série de analistas observaram que Bin Laden, apesar de ter sido finalmente morto, obteve importantes sucessos na sua guerra contra os EUA. “Ele afirmou muitas vezes que a única maneira de expulsar os EUA do mundo muçulmano e derrotar os seus sátrapas era atrair os americanos para uma série de pequenas mas caras guerras, que acabariam por arruiná-los”, escreve Eric Margolis. “'Sangrar os EUA', nas suas próprias palavras.

Os Estados Unidos, primeiro sob George W. Bush e depois sob Barack Obama, correram diretamente para a armadilha de Bin Laden... Gastos militares grotescamente aumentados e dependência da dívida... pode ser o mais pernicioso legado do homem que pensou que poderia derrotar os Estados Unidos” – particularmente quando a dívida está a ser cinicamente explorada pela extrema-direita, com a conivência do establishment democrata, para minar o que resta de programas sociais, de educação pública, de sindicatos, e, em geral, das restantes barreiras à tirania empresarial.

Logo se tornou evidente que Washington estava inclinado a realizar os mais fervorosos desejos de Bin Laden. Como discuti no meu livro “9-11”, escrito pouco depois da ocorrência dos ataques, qualquer um que conhecesse a região poderia reconhecer “que um ataque maciço a uma população muçulmana era a resposta às orações de Bin Laden e dos seus seguidores, e conduziria os Estados Unidos e os seus aliados a uma 'armadilha diabólica', nas palavras do ministro dos Negócios Estrangeiros francês”.

O analista sênior da CIA responsável por perseguir Osama Bin Laden desde 1996, Michael Scheuer, escreveu pouco depois que “Bin Laden tem dito com precisão as razões que o levaram a desencadear a guerra contra nós. [Ele] pretende mudar de forma drástica as políticas dos EUA e do Ocidente em relação ao mundo islâmico”, e com um amplo sucesso: “As forças e as políticas dos EUA estão a provocar a radicalização do mundo islâmico, algo que Osama Bin Laden vem tentando fazer com sucesso substancial, mas incompleto, desde o início dos anos 90. O resultado, parece-me justo concluir, é que os Estados Unidos da América continuam a ser o único aliado indispensável de Bin Laden.” E possivelmente continuam a sê-lo, mesmo após a sua morte.

O primeiro 11/9
Havia uma alternativa? Há todas as probabilidades de que o movimento jihadista, muito do qual altamente crítico a Bin Laden, pudesse ter sido dividido e minado após o 11/9. O “crime contra a humanidade”, como era correctamente chamado, poderia ter sido abordado como um crime, com uma operação internacional para deter os presumíveis suspeitos. Na época esta ideia foi reconhecida, mas a sua execução sequer foi considerada.

Em “9-11”, citei a conclusão de Robert Fisk de que “o crime horrendo” de 11/9 foi cometido “com maldade e crueldade impressionante,” um juízo exato. É útil ter em mente que os crimes poderiam ter sido ainda piores. Suponham, por exemplo, que o ataque tivesse ido tão longe ao ponto de bombardear a Casa Branca, matando o presidente, de impor uma ditadura militar brutal que matasse milhares e torturasse dezenas de milhares, instalando ao mesmo tempo um centro de terror internacional que ajudasse a impor estados similares de tortura-e-terror noutros países, e executando uma campanha internacional de assassinato; e como um incentivo suplementar, tivesse trazido uma equipa de economistas – chamemos-lhes de “os Kandahar boys” – que rapidamente conduzissem a economia a uma das piores depressões da sua história. Claramente, teria sido muito pior do que o 11/9.

Infelizmente, nada disto é especulação. Aconteceu. A única inexatidão neste breve relato é que os números devem ser multiplicados por 25 para produzir equivalentes per capita, a medida apropriada. Refiro-me, naturalmente, àquilo que na América Latina é frequentemente chamado de “o primeiro 11/9”: o 11 de Setembro de 1973, quando os Estados Unidos culminaram com sucesso os seus esforços para derrubar o governo democrático de Salvador Allende, no Chile, com um golpe militar que levou ao poder o regime brutal do general Pinochet. O objetivo, nas palavras da administração Nixon, era matar o “vírus” que poderia estimular todos esses “estrangeiros [que] andam a querer tramar-nos” e que queriam assumir o controle dos seus próprios recursos e aplicar uma política intolerável de desenvolvimento independente. A apoiar esta política estava a conclusão do Conselho de Segurança Nacional que, se os EUA não conseguiam controlar a América Latina, não se podia esperar que conseguissem realizar a sua Ordem “em qualquer outro lugar no mundo.”

O primeiro 11/9, ao contrário do segundo, não mudou o mundo. Não era “nada de grandes consequências”, como garantiu Henry Kissinger ao seu chefe poucos dias depois.

Estes eventos de poucas consequências não se limitaram ao golpe militar que destruiu a democracia chilena e pôs em movimento a história de horror que se seguiu. O primeiro 11/9 foi apenas um ato de um drama que começou em 1962, quando John F. Kennedy alterou a missão dos militares latino-americanos de “defesa hemisférica” – um resquício anacrônico da Segunda Guerra Mundial – para a “segurança interna”, um conceito com uma interpretação arrepiante nos círculos latino-americanos dominados pelos EUA.

Na “História da Guerra Fria”, recentemente publicada pela Universidade de Cambridge, o acadêmico latino-americano John Coatsworth escreve que daquele tempo até “ao colapso soviético em 1990, o número de presos políticos, de vítimas de tortura, e de execuções de dissidentes políticos não violentos na América Latina excedeu amplamente os da União Soviética e seus satélites europeus do Leste,” incluindo também muitos mártires religiosos e massacres em massa, sempre apoiados ou iniciado em Washington. O último grande ato violento foi o assassinato brutal de seis importantes intelectuais latino-americanos, sacerdotes jesuítas, poucos dias depois da queda do Muro de Berlim. Os criminosos foram um batalhão de elite salvadorenho, que já tinha deixado um chocante rasto de sangue, recém saído de um treinamento na Escola de Guerra Especial JFK, que actua sob as ordens diretas do Alto Comando do estado cliente dos Estados Unidos.

Evidentemente, as consequências desta praga hemisférica ainda ecoam.

Dos raptos à tortura e ao assassinato
Tudo isto, e muitas coisas semelhantes, são desvalorizadas como sendo de pouca importância, e esquecidas. Aqueles cuja missão é governar o mundo desfrutam de uma imagem mais reconfortante, muito bem articulada na atual edição do prestigiado (e valioso) jornal do Royal Institute of International Affairs, em Londres. O artigo principal discute “a ordem internacional visionária” da “segunda metade do século XX” marcada pela “universalização de uma visão americana da prosperidade comercial”. Eis uma visão que não chega a exprimir a percepção daqueles que estão do lado errado das armas.

O mesmo vale para o assassinato de Osama Bin Laden, que põe fim, pelo menos, a uma fase da “guerra contra o terror” re-declarada pelo presidente George W. Bush no segundo 11/9. Façamos algumas reflexões sobre esse evento e o seu significado.

Em 1° maio de 2011, Osama Bin Laden foi morto na sua praticamente desprotegida residência por uma incursão de 79 SEALs da Marinha, que entraram no Paquistão de helicóptero. Depois de muitas histórias sensacionalistas fornecidas pelo governo e retiradas, os relatórios oficiais tornaram cada vez mais claro que a operação foi um assassinato planejado, violando multiplamente as normas elementares do direito internacional, começando com a invasão em si.

Não parece ter havido qualquer tentativa de deter a vítima desarmada, como presumivelmente poderia ter sido feito por 79 comandos que não enfrentaram oposição – excepto, relatam, da sua esposa, também desarmada, contra a qual dispararam em legítima defesa, quando ela “arremeteu” sobre eles, de acordo com a Casa Branca.

A reconstrução plausível dos acontecimentos foi feita pelo veterano correspondente no Oriente Médio, Yochi Dreazen, e colegas na revista Atlantic. Dreazen, ex-correspondente militar do Wall Street Journal, é correspondente sênior do Grupo National Journal, cobrindo assuntos militares e de segurança nacional. De acordo com a sua investigação, o planeamento da Casa Branca não parece ter considerado a opção de capturar Bin Laden vivo: “O governo deixou claro ao clandestino Comando Conjunto de Operações Especiais que queria Bin Laden morto, de acordo com uma autoridade sênior dos EUA que teve conhecimento das discussões. Um oficial de alta patente militar que foi informado do assalto disse que os SEALs sabiam que a sua missão não era levá-lo vivo.”

Os autores acrescentam: “Para muitos, no Pentágono e na CIA, que tinham passado quase uma década a caçar Bin Laden, matar o militante foi um ato necessário e justificado de vingança”. Além disso, “a captura de Bin Laden vivo teria também posto a administração diante de uma série de incômodos desafios jurídicos e políticos”. Melhor, então, assassiná-lo, deitar o corpo ao mar sem a autópsia considerada essencial depois de uma morte – um ato que previsivelmente provocou raiva e ceticismo em grande parte do mundo muçulmano.

Como observa a investigação da Atlantic: “A decisão de matar Bin Laden sem rodeios foi a ilustração mais clara até agora de um aspecto pouco notado da política de contra-terrorismo da administração Obama. O governo Bush capturou milhares de militantes suspeitos e enviou-os para campos de detenção no Afeganistão, no Iraque e na Baía de Guantánamo. A administração Obama, em contraste, tem-se concentrado em eliminar terroristas individuais em vez de tentar capurá-los vivos.” Trata-se de uma diferença significativa entre Bush e Obama. Os autores citam o ex-chanceler da Alemanha Ocidental Helmut Schmidt, que “disse à TV alemã que a invasão dos EUA foi 'muito claramente uma violação do direito internacional' e que Bin Laden deveria ter sido detido e levado a julgamento”, contrapondo Schmidt ao Procurador Geral dos EUA, Eric Holder, que “defendeu a decisão de matar Bin Laden, embora este não representasse uma ameaça imediata para os SEALs, dizendo a um painel da Câmara ... que o assalto tinha sido 'legal, legítimo e adequado em todos os sentidos'”.

A eliminação do corpo sem autópsia também foi criticada por aliados. O eminente advogado britânico Geoffrey Robertson, que apoiou a intervenção e se opôs à execução em grande parte por razões pragmáticas, considerou no entanto a afirmação de Obama de que “fora feita justiça” como um “absurdo”, o que deveria ser óbvio para um ex-professor de direito constitucional. A lei do Paquistão “exige um inquérito sobre a morte violenta e a legislação internacional de direitos humanos insiste que o 'direito à vida' obriga a um inquérito sempre que ocorre uma morte violenta por acção de um governo ou da polícia. Os EUA têm, portanto, o dever de realizar um inquérito que satisfaça o mundo quanto às verdadeiras circunstâncias desta morte.”

Robertson, a propósito, recorda-nos que “nem sempre foi assim. Quando chegou a hora de decidir o destino de homens muito mais mergulhados na maldade que Osama Bin Laden – a liderança nazi – o governo britânico queria que eles fossem enforcados seis horas após a captura. O presidente Truman hesitou, citando a conclusão de Robert Jackson, do Supremo Tribunal, que a execução sumária “não se sentaria facilmente na consciência americana nem seria lembrada pelos nossos filhos com orgulho... o único caminho é determinar a inocência ou culpa do acusado depois de uma audiência tão desapaixonada quanto os tempos permitam e após um registo que vai deixar claros as nossas razões e motivos”.

Eric Margolis comenta que “Washington nunca publicou provas da sua afirmação de que Osama bin Laden esteve por trás dos ataques do 11 de Setembro”, presumivelmente uma razão pela qual “as sondagens mostram que pelo menos um terço dos americanos que responderam acredita que o governo de Estados Unidos e/ou Israel estiveram por trás do 11 de Setembro”, enquanto no mundo muçulmano o ceticismo é muito mais alto. “Um julgamento aberto nos Estados Unidos ou em Haia teria exposto essas afirmações à luz do dia”, continua, razão prática pela qual Washington deveria ter seguido a lei.

Em sociedades que professam algum respeito pela lei, os suspeitos são detidos e levados a um julgamento justo. Sublinho "suspeitos". Em junho de 2002, o chefe do FBI Robert Mueller, no que o Washington Post descreveu como “entre os seus comentários públicos mais detalhados sobre a origem dos ataques”, pôde dizer apenas que “os investigadores crêem na ideia de que os ataques do 11 de Setembro ao World Trade Center e ao Pentágono vieram de líderes da Al Qaeda no Afeganistão, a maquinação efectiva foi feita na Alemanha, e o financiamento veio através dos Emirados Árabes Unidos a partir de fontes no Afeganistão.”

O que o FBI acreditou e pensou em junho de 2002 não o sabia oito meses antes, quando Washington repeliu ofertas provisórias dos Taliban (quão sérias, não sabemos) para permitir um novo julgamento de Bin Laden se lhes fossem apresentadas provas. Assim, não é verdade, como o presidente Obama afirmou nas suas declarações da Casa Branca depois da morte de Bin Laden, que “rapidamente soubemos que os ataques do 11 de Setembro foram executados pela Al-Qaeda.”

Nunca houve alguma razão para duvidar do que o FBI acreditou em meados de 2002, mas isto deixa-nos longe da prova da culpa requerida em sociedades civilizadas – e quaisquer que as provas fossem, não justificam o assassinato de um suspeito que, parece, teria sido facilmente detido e levado a julgamento. O mesmo é mais ou menos verdade quanto às provas fornecidas desde então. Assim, a Comissão do 11 de Setembro forneceu provas circunstanciais extensas do papel de Bin Laden no 11 de Setembro, baseando-se principalmente no que lhe tinha sido dito sobre confissões de presos de Guantánamo. É duvidoso que muito disso se sustivesse num julgamento independente, tendo em conta as maneiras como as confissões foram extraídas. Mas, em qualquer caso, as conclusões de uma investigação autorizada pelo Congresso, por muito convincentes que se possam achar, claramente ficariam aquém de uma sentença por um tribunal credível, que é o que passa a categoria do acusado de suspeito para condenado.

Fala-se muito da "confissão" de Bin Laden, mas aquilo foi uma fanfarronice, não uma confissão, com tanta credibilidade quanto a minha "confissão" de que ganhei a maratona de Boston. A fanfarronice diz-nos muito do seu caráter, mas nada da sua responsabilidade pelo que ele considerou como um grande feito, do qual quis ficar com o crédito.

De novo, tudo isso é, de forma transparente, bastante independente do nosso juízo sobre a sua responsabilidade, que pareceu clara imediatamente, mesmo antes do inquérito do FBI, e que ainda parece.

Crimes de Agressão
Vale a pena acrescentar que a responsabilidade de Bin Laden foi reconhecida na maior parte do mundo muçulmano e condenada. Um exemplo significativo é o do eminente clérigo libanês, xeique Fadlallah, muito respeitado em geral pelo Hezbollah e por grupos xiitas, também fora do Líbano. Ele tinha alguma experiência com assassinatos. Tinha sido visado para assassínio: por um caminhão-bomba fora duma mesquita, numa operação organizada pela CIA em 1985. Escapou, mas 80 outros foram mortos, na maior parte mulheres e meninas ao saírem da mesquita – um daqueles crimes inumeráveis que não entram para os anais do terror por causa da falácia “da agência errada.” O xeique Fadlallah condenou marcadamente os ataques do 11 de Setembro.

Um dos especialistas principais do movimento jihadista, Fawaz Gerges, sugere que o movimento poderia ter-se dividido, tivessem os Estados Unidos explorado a oportunidade, em vez de mobilizar o movimento, em particular com o ataque ao Iraque, um grande benefício para Bin Laden, que levou a um aumento acentuado do terror, como as agências de espionagem tinham antecipado. Nas audições Chilcot, ao investigar o contexto da invasão do Iraque, por exemplo, o antigo chefe da agência de informações internas britânica MI5 declarou que tanto a agência britânica como a dos Estados Unidos estavam conscientes de que Saddam não representava qualquer ameaça séria, que a invasão provavelmente aumentaria o terror e que as invasões do Iraque e do Afeganistão tiveram partes de uma geração radicalizada de muçulmanos que viram as acções militares como “um ataque ao Islão”. Como acontece muitas vezes, a segurança não foi uma prioridade alta para a acção do estado.

Poderia ser instrutivo perguntarmo-nos como estaríamos reagindo se comandos iraquianos tivessem aterrado no complexo militar de George W. Bush, o assassinassem e lançassem o corpo no Atlântico (depois dos rituais fúnebres devidos, naturalmente). Sem sombra de controvérsia, ele não era um "suspeito" mas sim o "decisor" que deu as ordens para invadir o Iraque – isto é, cometer “o crime internacional supremo que só se diferencia de outros crimes de guerra por conter dentro de si a maldade acumulada da totalidade” pelo qual os criminosos nazis foram enforcados: as centenas de milhares de mortes, os milhões de refugiados, a destruição da maior parte do país e do seu patrimônio nacional e o conflito sectário assassino que agora se estendeu ao resto da região. Igualmente de forma incontroversa, esses crimes excederam vastamente tudo o atribuído a Bin Laden.

Dizer que tudo isso é incontroverso, conforme é, não quer dizer que não seja negado. A existência de aplanadores da Terra não muda o fato de que, de forma incontroversa, a terra não é plana. De forma semelhante, é incontroverso que Stalin e Hitler foram responsáveis por crimes horrendos, embora os seus partidários o neguem. Tudo isto deveria, de novo, ser demasiado óbvio para ser comentado, e sê-lo-ia, excepto numa atmosfera de histeria tão extrema que bloqueasse o pensamento racional.

De forma semelhante, é incontroverso que Bush e seus parceiros cometeram mesmo o “crime internacional supremo” – o crime da agressão. Aquele crime foi definido de forma suficientemente clara pelo magistrado Robert Jackson, o Chefe do Conselho dos Estados Unidos em Nuremberga. "Um agressor", propôs Jackson ao Tribunal na sua declaração de abertura, é um estado que é o primeiro a cometer tais ações como a “invasão pelas suas forças armadas, com ou sem declaração da guerra, do território de outro estado”. Ninguém, nem mesmo o apoiante mais extremo da agressão, nega que Bush e parceiros fizeram precisamente isso.

Também faríamos bem em lembrar as palavras eloquentes de Jackson em Nuremberga sobre o princípio da universalidade: “Se certos atos na violação de tratados são crimes, são crimes sejam os Estados Unidos ou seja a Alemanha fazê-los e não estamos preparados para estabelecer uma regra da conduta criminal contra outros que não estivéssemos dispostos a ter invocado contra nós”.

É também claro que intenções anunciadas são irrelevantes, mesmo se nelas se acreditar verdadeiramente. Registos internos revelam que os fascistas japoneses aparentemente acreditaram que, ao assolar a China, se esforçavam por a converter “num paraíso terrestre”. E embora possa ser difícil imaginar, é concebível que Bush e companhia acreditassem que protegiam o mundo da destruição pelas armas nucleares de Saddam. Tudo irrelevante, embora partidários ardentes em todos os lados possam tentar convencer-se de outra coisa.

Deixam-nos duas escolhas: ou Bush e seus parceiros são culpados do “crime internacional supremo” incluindo de todos os males que se seguem, ou então declaramos que os processos de Nuremberga foram uma farsa e que os aliados eram culpados de assassinato judicial.

A Mentalidade Imperial e o 11 de Setembro
Alguns dias antes do assassinato de Bin Laden, Orlando Bosch morreu pacificamente na Flórida, onde viveu juntamente com o seu cúmplice Luis Posada Carriles e muitos outros parceiros do terrorismo internacional. Depois de ter sido acusado de dúzias de crimes terroristas pelo FBI, Bosch recebeu um perdão presidencial de Bush I, passando por cima das objecções do Departamento de Justiça que considerou a conclusão “inevitável de que seria prejudicial para o interesse público dos Estados Unidos fornecer um porto seguro a Bosch”. A coincidência dessas mortes imediatamente traz a doutrina de Bush II à lembrança – “já … uma regra de facto das relações internacionais”, segundo o notável especialista de relações internacional de Harvard Graham Allison – que renega “a soberania de estados que fornecem santuário a terroristas”.

Allison refere-se à declaração oficial de Bush II, dirigida aos Taliban, de que “aqueles que abrigam terroristas são tão culpados como os próprios terroristas”. Tais estados, portanto, perderam a sua soberania e são objectivos prontos para bombardeamento e terror – por exemplo, o estado que abrigou Bosch e o seu parceiro. Quando Bush emitiu esta nova “ regra de fato das relações internacionais,” ninguém pareceu notar que ele apelava à invasão e destruição dos Estados Unidos e ao assassínio dos seus presidentes criminosos.

Nada disto é problemático, claro, se rejeitarmos o princípio da universalidade do magistrado Jackson, e adotarmos antes o princípio de que os Estados Unidos são auto-imunes contra o direito internacional e as convenções – como, de fato, o governo tornou frequentemente muito claro.

Vale a pena também pensar no nome dado à operação de Bin Laden: Gerônimo. A mentalidade imperial é tão profunda que poucos parecem capazes de perceber que a Casa Branca está a glorificar Bin Laden chamando-lhe “Gerônimo” - o chefe índio apache que conduziu a resistência corajosa aos invasores das terras Apache.

A escolha descuidada do nome lembra a tranquilidade com que damos nomes às nossas armas de assassinato a partir das vítimas dos nossos crimes: Apache, Blackhawk [1]… Poderíamos reagir diferentemente se a Luftwaffe tivesse chamado aos seus aviões de combate "Judeu" e "Cigano".

Os exemplos mencionados caem dentro da categoria “excepcionalismo americano,” não fosse o facto de uma supressão fácil dos crimes próprios ser virtualmente ubíqua entre estados poderosos, pelo menos naqueles que não são derrotados e obrigados a reconhecer a realidade.

Talvez o assassinato tenha sido percebido pela administração como “um ato de vingança,” como Robertson conclui. E talvez a rejeição da opção legal de um julgamento reflicta uma diferença entre a cultura moral de 1945 e a de hoje, como ele sugere. Qualquer que fosse o motivo, dificilmente podia ter sido apenas a segurança. Como no caso de “crime internacional supremo” no Iraque, o assassinato de Bin Laden é outra ilustração do fato importante de que a segurança é muitas vezes não uma alta prioridade da ação do estado, ao contrário da doutrina que recebemos.

(*) Noam Chomsky é Professor emérito do Instituto no Departamento de Linguística e Filosofia do MIT. É autor de numerosas obras políticas de topo de vendas, incluindo “9-11: Was There an Alternative?” (Seven Stories Press), uma versão atualizada do seu relato clássico, que acaba de ser publicada esta semana juntamente com um novo ensaio destacado – a partir do qual este post foi adaptado – levando em conta os 10 anos desde os ataques do 11 de Setembro.

(**) Tradução de Luis Leiria e Paula Sequeiros para o Esquerda.net
A partir de texto publicado em Tom Dispatch

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Que é ser de esquerda, hoje?



O perfil da esquerda sofreu uma mutação com o tempo, abrindo um leque
complexo de temáticas, antes, desapercebidas. Quem nunca mudou foi a
burguesia continental, que sempre opôs-se à distribuição de renda, à
desconcentração das terras e à socialização do poder político e
econômico.

Luiz Marques


A “modernidade” nasceu com o Renascimento, a Reforma e a conquista das
Américas. Encerrou-se com os horrores das duas Guerras Mundiais.
Começou então a gincana intelectual para achar uma expressão adequada
à sociedade que sobreveio. “Pós-industrial”, arriscou-se nos anos 50.
“Pós-moderna”, insinuou-se nos 80. “Era nova”, comemorou-se no auge da
globalização teleguiada pelo capital financeiro, nos 90. Esses termos
suscitaram discussões e confusões semânticas na academia e nos cafés,
o que esvaziou o potencial analítico de cada um. Mas ajudaram a
compreender a crise dos paradigmas modernos e suas negatividades
intrínsecas.

Que paradigmas? 1) a economia de mercado, que acelerou a urbanização
do ser humano, desembocando no neoliberalismo e na violência no
cotidiano das metrópoles; 2) o progresso nas ciências e nas técnicas
de manipulação da matéria não-viva (exploração da energia atômica) e
viva (descoberta do DNA, práticas de clonagem), com desenlaces
imprevisíveis, indo de uma possível hecatombe a servidões jamais
imaginadas; 3) os esforços seculares da opinião pública para controlar
o poder político, que não consideraram o fato de a mídia induzir em
larga escala o juízo da cidadania, através da radiofonia, da televisão
e dos jornais, que a propriedade cruzada agrava; 4) a conversão do
indivíduo em vértice social e moral da sociedade, que não levou em
conta que a massificação (heteronomia) corrói a livre consciência
(autonomia) e; 5) a preeminência do eurocentrismo na avaliação de
outras culturas, que conduziu ao colonialismo.

A lição a ser tirada, conforme o filósofo francês Pierre Fougeyrollas
(A crise dos paradigmas modernos e o novo pensamento, 2007), remete a
uma forma de pensar comprometida com a espécie e o planeta. “Cósmica”,
para reintegrar a humanidade no cosmos. “Lúdica”, para estampar a
criatividade poética e artística na abordagem do real. “Demiúrgica”,
para apropriar-se do existente e promover uma recriação de tudo, com
espírito ecumênico. “Interativa”, para subverter as hierarquias
clássicas do conhecimento, conectando intuições e conceitos, ideias e
imagens. Os eixos estratégicos do “novo pensamento” decorrem de um
olhar realista sobre o presente.

Esse programa traduz a luta dos movimentos sociais e ambientalistas
que reúnem-se nas edições do Fórum Social Mundial e, para 2012, já
preparam um rol de intervenções visando a Conferência das Nações
Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que marcará duas
décadas da Eco-92. O modelo de desenvolvimento ocidental (o modo de
produção e de consumo), baseado na dominação da natureza, sem nenhum
planejamento democrático, esgotou-se. Urge um mundo de fraternidade.
Como pregou São Francisco de Assis, ao celebrar o Irmão Sol (Fratello
Sole) e a Irmã Lua (Sorella Luna). Ou como indicou Marx, no terceiro
volume d'O Capital, ao definir o socialismo como a sociedade onde “os
produtores associados organizam racionalmente as suas trocas com a
natureza”. No caso, a emotiva prece cristã e o prognóstico ateu
coincidem.

Ecossocialismo

Publicado em 2002, o “Manifesto Ecossocialista Internacional” conjuga
o socialismo e o ecologismo, de maneira orgânica. “Na nossa visão, as
crises ecológicas e o colapso social estão relacionados e deveriam ser
encarados como manifestações diferentes das mesmas forças
estruturais”, lê-se no documento. Os desequilíbrios são o preço pago
pela incontrolável dinâmica da acumulação, da ânsia de rentabilidade
que não pode ser cancelada, da suposição de que os recursos naturais
são infinitos, do ideal de enriquecimento pessoal. “Cresça ou morra”,
é o lema do capitalismo. Seja “vencedor”, não “perdedor”, é o
imperativo do mercado. No entanto, a lógica do produtivismo é
insuportável. Orientada pelo valor de troca em detrimento do valor de
uso, a produção ilimitada causa danos ambientais de proporções
irreparáveis.

“Não se trata de opor os 'maus' capitalistas ecocidas aos 'bons'
capitalistas verdes: é o próprio sistema, ancorado na concorrência
impiedosa, nas exigências de lucro rápido, que é o destruidor do meio
ambiente”, sublinha Michael Löwy. Sob certo aspecto, a falsa
subdivisão apareceu no Protocolo de Kyoto (1997), que empregou dois
mecanismos na tentativa de conter as emissões de carbono na atmosfera,
o Cap and Trade: um teto máximo de emissões e um mercado de troca de
títulos de direito de emissão de carbono no hemisfério Sul, para
compensar a poluição provocada pelas nações industrializadas do Norte.
Com o que o carbono atmosférico virou uma commodity.Forjado nas leis
do mercado, o artifício para sensibilizar (a rigor, chantagear) o
“empreendorismo” fracassou e as emissões aumentaram três vezes mais. A
autonomização da economia não permite a sua subordinação a um controle
social, político ou ético-ambiental.

O resultado é a profusão de bens desnecessários, e a escassez daqueles
necessários às demandas sociais e ao equilíbrio ecológico. A política
econômica capitalista é alinhavada por valores monetários. Não se rege
por nenhuma consciência de espécie e tampouco planetária. Por isso,
acarreta riscos iminentes para o futuro. “Se a primeira contradição do
capitalismo se dá entre as forças produtivas e as relações de
produção, a segunda ocorre entre as forças produtivas e as condições
de produção (trabalhadores, espaço urbano, natureza)”, observou James
O'Connor, editor da revista norte-americana Capitalism, Nature and
Socialism. Hoje, não existe a contradição principal e a secundária,
elas apresentam-se imbricadas. O ecossocialismo pugna em ambas as
frentes.

O marxismo renovou-se ao encontrar a ecologia, a problemática de
gênero e raça. Não se confirmou a assertiva de que suas categorias
teóricas (os modos de produção e a formação econômico-social) seriam
demasiado esquemáticas para apreender a sobreposição das esferas
ideológica, política e econômica, e a articulação dos processos
ecológicos, tecnológicos e culturais que constituem os suportes de
sustentabilidade da produção. O marxismo revelou-se aberto às
oposições não-classistas e comedido em relação à noção de “progresso”.
Atento às forças destrutivas do capitalismo. Reside aí a contribuição
do ecologismo à práxismarxista. Em contrapartida, os movimentos
ecologistas que estenderam as mãos ao marxismo somaram, à denúncia do
produtivismo, a percepção crítica sobre as estruturas sócio-econômicas
que impulsionam a ganância.

Ecologia de mercado

Não raros, circunscrevem as mobilizações ecológicas aos temas
pontuais, sem contextualizá-las em uma totalidade significativa.
Apostam em um “capitalismo limpo”, que combine a “responsabilidade
social”, apregoada pelos que elidiram do Estado a obrigação de
políticas para erradicar a pobreza, e a “responsabilidade verde”,
destacada com ridículas medalhas ao mérito para as empresas que adotam
uma praça ou um canteiro de plantas. Abstêm-se de pressionar o
aparelho estatal para que tome iniciativas em prol dos setores sociais
desfavorecidos e do combalido meio ambiente. Propõem “ecotaxas” aos
infratores da legalidade, se tanto. Preocupam-se com os “excessos”,
não com o que rotiniza a predação. Tais inhapas são absorvidas pelo
status quo, passando a impressão que a ameaça sobre a Terra (Gaia, no
dizer de um pioneiro, José Lutzenberger) pode ser revertida com um
marketingde “varejo”, prescindindo das políticas de “atacado”.

Se essa parcela de ativistas exprime um discernimento precário ao
agir, o mesmo ocorre quando o movimento operário alia-se ao lobby da
indústria automobilística para forçar vantagens fiscais. O automóvel,
glamourizado e erotizado pela publicidade, é um símbolo do american
way of life, da incitação ao consumo individual. Calcula-se que 45% do
território de Los Angeles esteja reservado aos carros, incluindo a
área viária e os estacionamentos. Em São Paulo, chega-se a algo em
torno de 35%. Politicamente correto é investir no transporte coletivo
de qualidade, em faixas segregadas para ônibus, trens de superfície,
metrôs e bicicletas nas cidades para evitar os congestionamentos, bem
como pleitear ferrovias para desafogo dos pesados caminhões de carga
nas estradas, que engordam as estatísticas de acidentes com vítimas.
Tragédias, aliás, que não se resolvem em mesas redondas com as
associações de construtores de veículos automotivos e os consumidores
para estudar os dispositivos de freios, o raiado dos pneus, etc.
Resolvem-se com o participacionismo social, desde que este postule um
outro modo de vida, sob um horizonte civilizacional que supere o
fetichismo da mercadoria de rodas.

Os verdes tendem a abstrair da história a defesa ambiental, tecendo
uma responsabilização genérica, como se um ascensorista de elevador
tivesse idêntica parcela de envolvimento que o proprietário de uma
fábrica de celulose. “A culpa é do homem”, são as manchetes
jornalísticas nos cadernos especiaissobrea agenda do crescimento
sustentável. Vale salientar, contudo, que os ambientalistas europeus
fizeram a leitura correta das eleições presidenciais brasileiras.
Declararam apoio a Dilma Rousseff, no segundo turno, para que “o voto
libertário em Marina Silva paradoxalmente não se transformasse em uma
catástrofe para as mulheres, para os direitos humanos e para os
direitos da natureza... José Serra não é um socialdemocrata de
centro... Por trás dele, a direita mobiliza o que há de pior...
preconceitos sexistas, machistas e homofóbicos, junto com interesses
econômicos escusos e míopes”. Entre os signatários, Dany Cohn Bendit
(Alemanha), Alain Lipietz (França), Philippe Lamberts (Bélgica),
Monica Frassoni (Itália).

O bom senso (que veio do frio) não contagiou Marina que, ao invés de
dramatizar o momento em que decidia-se a continuidade do projeto
representado pelo governo Lula (avanços sociais, participação cidadã,
política externa soberana) ou a volta ao neoliberalismo
(privatizações, desemprego, corrupção, submissão à Alca e aos EUA),
optaram pela neutralidade. Com o que, dois terços dos eleitores do PV
penderam para o candidato do atraso, sem um gesto sequer da
dirigente-mor para impedir o deslizamento político. A pequenez tirou
do partido o papel de educador das massas, despolitizou as escolhas e
fez tábua rasa das duras batalhas contra as desigualdades sociais e
regionais. Ao contrário de situar os verdes nativos como uma pretensa
alternativa, o vergonhoso silêncio erigiu-os em tristes bengalas
auxiliares da reação nas urnas.

Esquerda versus Direita

Anthony Giddens (Para além da esquerda e da direita, 1994), mentor da
“Terceira Via”, tentou uma síntese superior entre o conservadorismo e
o socialismo, os quais teriam sido abatidos pela marcha da
globalização e a expansão da reflexividade social. O campo da
política, assim, haveria se alterado e cedido terreno aos paradoxos do
neoliberalismo. Sua sugestão para “repensar” o Welfare State (o Estado
de bem-estar social) foi acolhida pelo primeiro-ministro britânico, e
em nada diferenciou-se do receituário de Thatcher/Major. Tony Blair
manteve a legislação que flexibilizava e desregulamentava o contrato
de trabalho e, com cinismo, explicitou em um discurso a essência da
Third Way: “flexibilização sim, mas com fair play”. O livro do
sociólogo inglês mostra o quanto a esquerda desceu ao inferno no
período, rendendo-se ao Consenso de Washington.

Coube a Norberto Bobbio (Direita e esquerda, 1994) defender a
atualidade da díade política que remonta à Revolução Francesa. A
esquerda teria como epicentro o valor da “igualdade” (as pessoas são
mais iguais que desiguais, socialmente). A direita, o valor da
“liberdade” (as pessoas são mais desiguais que iguais, naturalmente).
A importância da reflexão, lançada numa época em que o capitalismo
triunfante trombeteava o “fim das ideologias”, esteve em (re)legitimar
a dualidade político-ideológica. O opúsculo do jurista italiano teve
200 mil exemplares vendidos e 19 traduções em um curto prazo. Como
Fênix, o pássaro da mitologia grega, a esquerda renascia depois de
assassinada pelas agências internacionais de notícias, que viram na
queda do Muro de Berlim (1989) a domesticação da utopia e o
desaparecimento da rebeldia e da esperança.

Mas o princípio da igualdade não exaure a conceituação sobre o que
significa externar uma atitude anticapitalista. No final do século 19,
ser de esquerda era lutar pelos direitos políticos e pelo sufrágio
universal. Não mais que isso. Ao longo do século 20, outras bandeiras
incorporaram-se ao (nosso) prontuário de lutas identitárias: as ações
pelos direitos civis e sociais, contra o colonialismo e pela
independência nacional, o combate à hegemonia imperial estadunidense,
a equanimidade de gênero, as afirmações étnicas, o respeito às
diferenças, a integração dos países latino-americanos, a inversão de
prioridades na administração pública e, ainda, a democracia
participativa, cuja inspiração acha-se condensada na máxima de que “a
emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”. A
partir dos anos 70, surgiu a questão ecológica.

O perfil da esquerda sofreu uma mutação com o tempo, abrindo um leque
complexo de temáticas, antes, desapercebidas. Quem nunca mudou foi a
burguesia continental, que sempre opôs-se à distribuição de renda, à
desconcentração das terras e à socialização do poder político e
econômico. Aquela, desde priscas eras, reitera uma contrariedade ao
pagamento de impostos. Não porque sejam regressivos ou recolhidos com
critérios tributários que penalizam as classes trabalhadoras. Mas
porque, com a ascensão de governos democrático-populares na América
Latina, os fundos públicos são redirecionados por políticas
republicanas à dignificação da vida da população. “Prefiro ser essa
metamorfose ambulante / Do que ter aquela velha opinião formada sobre
tudo”, cantava Raul Seixas. Isso, para preservar a coerência com a
“justiça social” no enfrentamento à “ordem estabelecida”.
Acrescente-se, no metafórico aniversário de 31 anos do PT.

Luiz Marques é professor de Ciência Política da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul (UFRGS).