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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Andar com Fé...



Na tarde de quarta-feira, 21, o atual Secretário de Agricultura e Proteção ao Meio Ambiente e professor Especialista em História Africana e Afro-brasileira Everton Pereira, realizou o lançamento do livro “Andar com fé: Centro Umbandista e Africanista Xangô e Oxum. 30 anos de religiosidade e assistência social em Butiá – RS”, nas dependências da Associação do Centro Umbandista e Africanista Xangô e Oxum (ACUAXO).

O livro, fruto de uma pesquisa de mais um ano, é dividido em sete capítulos que tratam desde a chegada dos primeiros negros no Rio Grande do Sul, em Butiá, a organização religiosa trazida com eles e o trabalho social desenvolvido pelas religiões de origem afro-brasileira. Fala sobre a criação da ACUAXO, seus fundadores, as ações de cunho social realizadas pela entidade e traz a biografia de seu líder religioso, o babalorixá Honório Dias de Oliveira, o Pai Honório de Xangô.Segundo o autor “escolhi estudar história para entender melhor a realidade social e cultural de nosso país e não há como compreender o Brasil sem entender os quase quatro séculos de escravidão e tudo o que isso representa para o nosso passado e nosso presente. Não há como realmente conhecer o que é o Brasil, sem conhecer o negro. Sem entender a contribuição social, econômica e cultural que esta etnia deu e continua a dar na formação de nossa nacionalidade. Por isso escolhi este tema e para contribuir com a história de nossa cidade e dos negros de nossa cidade, que falo sobre eles e sua principal manifestação religiosa. Este livro busca combater o preconceito racial, disseminar valores com a solidariedade e principalmente, através do conhecimento, combater a intolerância religiosa. Luto pela construção de um mundo onde todos tenham espaço e vez.”. Pereira afirma ainda que o fato da ACUAXO ter uma organização administrativa e registros históricos bem organizados contribuiu muito para o desenvolvimento da pesquisa e agradeceu aos colaboradores e patrocinadores do projeto que foram o Deputado Estadual Raul Pont do PT e a Copelmi Mineração. “Sem a parceria do Deputado Raul Pont e da Copelmi este trabalho não iria virar em um documento a altura da história da ACUAXO e é para todos os frequentadores do Centro e para a comunidade butiaense como um todo que dedico esta obra”, disse Everton.

Estiveram presentes no lançamento do livro o prefeito Paulo Machado, o presidente da ACUAXO, José Carlos Marcolino da Silva, o presidente do Grupo Cultural Maracatu Quizomba, Adão Cleiton Leal e Pai Honório de Xangô, além dos filhos e filhas de santos do Centro e de dezenas de famílias assistidas pela Festa de Natal Sem Fome realizada no local no momento do lançamento da obra. O prefeito Paulo Machado afirmou que é importante para o município a realização de um trabalho que mantenha viva a história do negro e de um importante centro religioso como é o caso da ACUAXO. O presidente da associação José Carlos Marcolino da Silva agradeceu a escolha da Associação como tema da pesquisa para o livro e realçou a relevância do trabalho para a preservação da história da entidade e da religião afro-brasileira.

Os livros foram doados pelo autor a entidade que irá realizar a venda da obra que será revertida em contribuição para os trabalhos assistenciais. Serão também distribuídos exemplares nas escolas e na Biblioteca Municipal. Os interessados em comprar o livro deverão entrar em contato com a ACUAXO pelos fones 3652 1677 e 3652 6030, ou diretamente na Associação que fica na Rua Professora Carolina de Araújo, s/nº no Centro de Butiá, próxima a Delegacia de Polícia.

sábado, 19 de novembro de 2011

Andar com Fé



Por: EVERTON PEREIRA
Em: Butiá Notícias (18*19/11/2011)

Há uma canção de Gil chamada “Andar com Fé” que escolhi como título de minha monografia de pós-graduação em História Africana e Afro-brasileira. No trabalho eu trato dos 30 anos da Associação do Centro Umbandista e Africanista Xangô e Oxum presidido pelo querido amigo José Carlos Marcolino e que tem como líder religioso José Honório Dias de Oliveira, o popular Pai Honório. Neste trabalho, que em breve transformarei em um livro, busquei através de uma associação religiosa de nossa cidade, falar e elucidar um pouco sobre a história do negro em Butiá e no Rio Grande do Sul. Falar também sobre a beleza e a magia das religiões afro-brasileiras, buscando através do conhecimento acabar com a ignorância que cria o preconceito. Realço também a figura de Honório, que através de suas crenças religiosas, mobiliza centenas de seguidores que com ele realiza um belo e importante trabalho social em nossa comunidade. Da mesma forma que os kardecistas, católicos, evangélicos e outros centros afro-brasileiros também o fazem. A ACUAXO foi uma espécie de amostra, usando a linguagem acadêmica, de que orixás, caboclos, pretos velhos, exus e pombagiras também, através de seus devotos, ajudam o próximo.

Voltando ao título. Em “Andar com Fé” Gilberto Gil diz que a “a fé não costuma faiá (falhar)”. Diz inclusive que “mesmo a quem não tem fé a fé costuma acompanhar (...) pelo sim, pelo não”. A música quer passar a importância da crença. Do acreditar em algo. Principalmente se este acreditar seja baseado na experiência direta e não somente por meio de livros, palestras e sermões. Desta forma, pela experiência, a fé tornar-se mais forte, menos demagógica e hipócrita. Em uma parte do trabalho usei um pedaço da letra da música que, ao meu ver, tem uma relação com a religião praticada na ACUAXO: “A fé ta na maré, na lâmina de um punhal. Na luz, na escuridão”. A maré de Iemanjá, o orixá dos mares. No punhal que sacrifica (a origem deste termo vem do grego e significa “tornar sagrado”) o animal que em seu sangue (imagem forte na cultura judaico-cristã) carrega o Axé, a energia divina vital que é oferecida ao praticante e seu orixá. A fé que está na luz e na escuridão. Pois a escuridão não existe de fato, é ela a falta de luz. E não há lugar que a luz, a força divina, não possa entrar.

Falo aqui em fé, em religião afro-brasileira e em um centro religiosos que para muitos é refúgio espiritual e para outros, fundamentalistas e fanáticos religiosos, o lar do mal. Doentes do mesmo fanatismo e fundamentalismo que cria guerras, ódio e derruba aviões sobre prédios. Fundamentalistas que fazem mal a democracia que existe justamente para garantir o direito a crença e a diversidade de todo tipo. Nesta Semana da Consciência Negra, como estudioso da história do negro (porque ela nos releva a história do Brasil) e admirador de sua cultura que inclui sua religiosidade – que apesar de não professá-la respeito e tenho uma atração estética muito grande – gostaria de frisar a importância da tolerância. Não precisamos gostar de algo. Seja ele um partido político, um time de futebol, uma religião ou mesmo uma pessoa. Mas devemos tolerar sua existência. O direito do outro existir garante o nosso direito a existência. É este o princípio básico do Estado Laico. Não se trata de ateísmo, mas de que os governos e a política não interfira no campo do sagrado, que ele seja um espaço de escolhas individuais e que cada um acredite - ou não acredite – no que lhe faz bem. No que dá sentido a sua vida. Parabenizo o Pai Honório pela honraria recebida nesta Semana da Consciência Negra e àqueles que reconheceram, finalmente, seu trabalho e representação desta etnia que ainda necessita avançar muito em seus direitos até tornarmo-nos de fato uma democracia.

Sobre a morte (e a vida)




Por: EVERTON PEREIRA
Em: Butiá Notícias (11-12/11/2011)

Talvez uma das perguntas que acompanha o ser humano desde que ele tomou consciência de sua existência é o sentido da vida, com ela, o que é a morte. Todas, absolutamente todas as religiões tratam dela. Talvez seja exatamente esta indagação que fez surgir as primeiras práticas xamânicas e as primeiras religiões. Saber de onde viemos, porque estamos vivos e para onde vamos depois da vida é uma pergunta recorrente em todas as culturas. Da mesma forma, todas as tradições religiosas têm na morte um aspecto doutrinário importante – umas mais, como o espiritismo e as religiões africanas e outras menos como o próprio catolicismo e algumas ramificações do budismo, como o zen.

A morte sempre teve importância fundamental na vida de nossos ancestrais. Se hoje a Igreja Católica pouco discorre sobre o “além vida”, na Idade Média as pessoas viviam em função da morte, ou seja, seguir normas tidas como sagradas para ter uma “boa vida” depois da morte. O contrário disto era queimar eternamente no “fogo do inferno”. Da mesma forma o espiritismo têm sua existência baseada em um suposto “mundo espiritual”, um “lugar” para onde vamos depois da morte. Se tivermos uma vida regrada, disciplinada, praticando a caridade e o amor ao próximo, não precisaremos reencarnar tantas vezes e estaremos mais rápido junto a Deus. Já para o Zen Budismo, uma ramificação japonesa desta religião nascida há mais de 2.500 anos na Índia, o que vêm depois da morte pouco importa. O que importa é o momento presente em sua plenitude, com sabedoria e atenção já é o necessário. De maneira ainda mais profunda, trata-se de reconhecer o próprio “paraíso” ou o “nirvana” ou mesmo “Deus” aqui e agora, sem pensar no passado e no futuro. Não posso deixar de citar aqui aqueles para os quais a vida se acaba com a morte. Pessoas que não crêem na existência de um Deus ou algo que o valha e acreditam que com a morte se encerra a vida, como se ao morrer, acabasse a consciência totalmente. São os chamados ateus.

Falo da morte e consequentemente da vida por ter sido quarta-feira, o Dia dos Finados. Uma data especial para lembrar e prestar homenagem para aqueles que já se foram. É uma data cristã que teve suas primeiras celebrações no século II, mas hoje é celebrada por cristãos e não cristãos. Em uma sociedade baseada no prazer imediato, no culto ao corpo perfeito, a juventude, ao consumo exagerado, pouco se fala em morte. A maioria das pessoas evitam o assunto, ele significa o afastamento total do mundo material ao qual nosso modo de viver reverencia tanto. Não conseguimos conciliar vida e morte e entendê-la como um processo natural. Só se morremos porque estamos vivos. Porque tivemos a maravilhosa experiência de estar aqui vivenciando a existência. Creio que não importa o que vêm depois da morte. Se um nada eterno, um mundo espiritual, o inferno ou o paraíso. Viver de maneira digna, sem prejudicar ninguém e fazer para os outros o que gostaríamos que fizessem conosco, garantirá algo melhor depois, e se não há o depois, ao menos tivemos uma boa vida aqui e agora.

domingo, 2 de outubro de 2011

Irmão Sol, Irmã Lua


Por: EVERTON PEREIRA
Em: Butiá Notícias (30/09 - 01/10/2011)

Na próxima terça-feira, 04 de outubro, os católicos comemoram o dia de São Francisco de Assis, um dos santos mais cultuados do cristianismo. Francisco nasceu na cidade italiana de Assis no ano de 1182. Era filho de uma rica família de comerciantes da região e assim como outros líderes religiosos cristãos e nãos cristãos, optou pela pobreza e pela vida contemplativa em detrimento do conforto e dos prazeres da riqueza material. Tão logo ficou famoso por sua atitude radical para uma época em que o capitalismo e a burguesia iniciavam seu apogeu, teve muitos seguidores por pregar um retorno ao cristianismo primitivo – a base teológica dos ensinamentos de Jesus. Clara d’Offreducci, também de Assis foi uma das primeiras a seguir Francisco. Assim como ele, ela também vinha de uma família rica, de nobres, e deixou tudo para se dedicar a vida religiosa. São Francisco morreu em 1226 e Santa Clara, que fundou o ramo feminino da Ordem Franciscana, em 1253. Mas apesar da aparente distância cronológica, a mensagem dos dois permanece cada vez mais atual e relevante.

Para alguns pode parecer não haver lugar para os ensinamentos de Francisco em uma época que é justamente o avesso de tudo o que o Santo de Assis pregava. O culto ao consumo, ao ter, a ostentação e o desrespeito com a natureza são marcas de nossos dias. Como cegos procurando a luz na imensidão do paraíso, buscamos a paz e a harmonia onde elas menos estão. Clara e Francisco pregavam a humildade, o desapego e o amor a natureza como forma de encontrar a verdadeira felicidade. Uma felicidade que não tem condicionantes, que está sempre presente como o Deus que eles reverenciavam. Um Deus que está em tudo e em todos. Que se manifesta na pobreza, nos animais, em toda sua Criação. É de São Francisco, para mim, um dos mais belos textos religiosos de todos os tempos. Chama-se o Cântico das Criaturas, nele ele expressa todo seu amor a Deus e nele reconhece esta presença do Criador em todas Suas criaturas. Em uma parte, do Cântico, Francisco disse o seguinte: “Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Lua e as Estrelas. No céu as acendeste, claras, e preciosas e belas. Louvado sejas, ó meu Senhor, pelo irmão Vento e pelo Ar, e Nuvens, e Sereno, e todo o tempo, por quem dás às tuas criaturas o sustento. Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Água, que é tão útil e humilde, e preciosa e casta. Louvado sejas, ó meu Senhor, pelo irmão Fogo, pelo qual alumias a noite: e ele é belo, e jucundo, e robusto e forte. Louvado sejas, ó meu Senhor, pela nossa irmã a mãe Terra, que nos sustenta e governa, e produz variados frutos, com flores coloridas, e verduras”.

Mais do que santos católicos, Francisco e Clara, o Irmão Sol e a Irmã Lua, são exemplos de ética e respeito para com a natureza e para com o próximo, principalmente os mais pobres. Trazem uma mensagem que pode ser meditada e vivenciada por religiosos e por não religiosos. Uma mensagem de tolerância, de amor e de profunda união entre o homem e a natureza, local onde Deus “se esconde”. Em um mundo tão corrido, que dá tanto valor ao ter e não ao ser, é importante pensar pelo menos por alguns instantes nas palavras de Clara e Francisco.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Educar para a celebração da vida e da Terra



Os analistas mais sérios da pegada ecológica da Terra nos advertem que se não cuidarmos, podemos conhecer catástrofes piores do que aquelas vividas em 2011 no Brasil e no Japão. Para se garantir, a Terra poderá, talvez, ter que reduzir sua biosfera, eliminando espécies e milhões de seres humanos.

Leonardo Boff

Dada a crise generalizada que vivemos atualmente, toda e qualquer educação deve incluir o cuidado para com tudo o que existe e vive. Sem o cuidado, não garantiremos uma sustentabilidade que permita o planeta manter sua vitalidade, os ecossistemas, seu equilíbrio e a nossa civilização, seu futuro. Somos educados para o pensamento crítico e criativo, visando uma profissão e um bom nivel de vida, mas nos olvidamos de educar para a responsabilidade e o cuidado para com o futuro comum da Terra e da Humanidade. Uma educação que não incluir o cuidado se mostra alienada e até irresponsável.

Os analistas mais sérios da pegada ecológica da Terra nos advertem que se não cuidarmos, podemos conhecer catástrofes piores do que aquelas vividas em 2011 no Brasil e no Japão. Para se garantir, a Terra poderá, talvez, ter que reduzir sua biosfera, eliminando espécies e milhões de seres humanos.

Entre tantas excelências, próprias do conceito do cuidado, quero enfatizar duas que interessam à nova educação: a integração do globo terrestre em nosso imaginário cotidiano e o encantamento pelo mistério da existência.

Quando contemplamos o planeta Terra a partir do espaço exterior, surge em nós um sentimento de reverência diante de nossa única Casa Comum. Somos insepráveis da Terra, formamos um todo com ela. Sentimos que devemos amá-la e cuidá-la para que nos possa oferecer tudo o que precisamos para continuar a viver.

A segunda excelência do cuidado como atitude ética e forma de amor é o encantamento que irrompe em nós pela emergência mais espetacular e bela que jamais existiu no mundo que é o milagre, melhor, o mistério da existência de cada pessoa humana individual. Os sistemas, as instituições, as ciências, as técnicas e as escolas não possuem o que cada pessoa humana possui: consciência, amorosidade, cuidado, criatividade, solidariedade, compaixão e sentimento de pertença a um Todo maior que nos sustenta e anima, realidades que constituem o nosso Profundo.

Seguramente não somos o centro do universo. Mas somos aqueles seres, portadores de consciência e de inteligência. pelos quais o próprio Universo se pensa, se conscientiza e se vê a si mesmo em sua esplêndida complexidade e beleza. Somos o universo e a Terra que chegaram a sentir, a pensar, a amar e a venerar. Essa é nossa dignidade que deve ser interiorizada e que deve imbuir cada pessoa da nova era planetária.

Devemos nos sentir orgulhosos de poder desempenhar essa missão para a Terra e para todo o universo. Somente cumprimos com esta missão se cuidarmos de nós mesmos, dos outros e de cada ser que aqui habita.

Talvez poucos expressaram melhor estes nobres sentimentos do que o exímio músico e também poeta Pablo Casals. Num discurso na ONU nos idos dos anos 80 dirigia-se à Assembléia Geral pensando nas crianças como o futuro da nova humanidade. Essa mensagem vale também para todos nós, os adultos. Dizia ele:

A criança precisa saber que ela própria é um milagre, saber, que desde o início do mundo, jamais houve uma criança igual a ela e que, em todo o futuro, jamais aparecerá outra criança como ela. Cada criança é algo único, do início ao final dos tempos. E assim a criança assume uma responsabilidade ao confessar: é verdade, sou um milagre. Sou um milagre do mesmo modo que uma árvore é um milagre. E sendo um milagre, poderia eu fazer o mal? Não. Pois sou um milagre. Posso dizer Deus ou a Natureza, ou Deus-Natureza. Pouco importa. O que importa é que eu sou um milagre feito por Deus e feito pela Natureza. Poderia eu matar alguém? Não. Não posso. Ou então, um outro ser humano que também é um milagre como eu, poderia ele me matar? Acredito que o que estou dizendo às crianças, pode ajudar a fazer surgir um outro modo de pensar o mundo e a vida. O mundo de hoje é mau; sim, é um mundo mau. E o mundo é mau porque não falamos assim às crianças do jeito que estou falando agora e do jeito que elas precisam que lhes falemos. Então o mundo não terá mais razões para ser mau.

Aqui se revela grande realismo: cada realidade, especialmente, a humana é única e preciosa mas, ao mesmo tempo, vivemos num mundo conflitivo, contraditório e com aspectos terrificantes. Mesmo assim, há que se confiar na força da semente. Ela é cheia de vida. Cada criança que nasce é uma semente de um mundo que pode ser melhor. Por isso, vale ter esperança. Um paciente de um hospital psiquiátricoque visitei, escreveu, em pirografia, numa tabuleta que ma deu de presente:”Sempre que nasce uma criança é sinal de que Deus ainda acredita no ser humano”. Nada mais é necessário dizer, pois nestas palavras se encerra todo o sentido de nossa esperança face aos males e às tragédias deste mundo.

Leonardo Boff é teólogo e escritor.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A fé dos brasileiros


Por: EVERTON PEREIRA
Em: Butiá Notícias (26-27/08/2011)

A Fundação Getúlio Vargas divulgou esta semana, um novo mapa das religiões no Brasil, construído com base na última pesquisa de orçamentos familiares do IBGE. Até a instauração do sistema republicano em 1889, a “certidão de nascimento” era a própria certidão de batismo, confundindo cidadania e nacionalidade com fé e crença religiosa. Com o fim do Império e o fim da oficialidade religiosa católica, aos poucos o laicismo foi se consolidando no Estado brasileiro, embora ainda persista algumas distorções, como a presença de símbolos religiosos em prédios e locais públicos, que de acordo com a lógica do Estado Laico, previsto na Constituição, não deve ter relação com nenhuma religião, para que possa justamente, estar aberto a todas elas, já que os impostos mantenedores do Estado, do poder público, é oriundo de contribuintes que professam os mais diferentes credos, ou mesmo nenhum.

A maioria dos brasileiros ainda é de católicos, mas a queda no número de seguidores é maior a cada ano. Em 2003, 74% dos brasileiros se declaravam católicos. Em 2009, o número caiu para 68,4%. A redução foi maior entre jovens e mulheres. O número de evangélicos subiu de 17,9% para 20,2%. Aumentou também o número de pessoas que afirmam não ter religião: de 5,1% para 6,7%. A pesquisa mostra, acima de tudo, que o Brasil é um país de diversidade religiosa e isso fica bem caracterizado nas capitais brasileiras. O Rio de Janeiro tem a maior proporção de espíritas. São Paulo concentra mais seguidores de religiões orientais. Porto Alegre e não a Bahia, como prega o senso comum, tem a maior proporção de praticantes de religiões afro-brasileiras. Vitória é a cidade mais evangélica entre as capitais. Teresina tem a maior proporção de católicos. E é em Boa Vista que há mais pessoas sem religião.

Uma das conclusões presentes no novo mapa religioso do país é que nos últimos vinte anos, as mudanças de religiões entre os brasileiros vêm sendo cada vez mais rápida. Antigamente as pessoas não mudavam tanto de religião e famílias inteiras tendiam a pertencer a uma única religião. Isso vem mudando com o passar do tempo. As pessoas não só sentem-se mais a vontade para pesquisar e “experimentar” o credo que mais se identifica como deixa os filhos livres para seguir o caminho espiritual que lhe convêm. A diversidade religiosa do povo brasileiro ao lado da diversidade cultural, étnica, política, esportiva, sexual e racial é sem dúvidas a maior riqueza deste país. Por isso, toda tentativa de domínio e hegemonia de qualquer grupo sobre outro deve ser combatido com veemência. Não há democracia sem diversidade e muito menos diversidade sem democracia. Praticar e vivenciar os ensinamentos de determinada tradição religiosa é algo que deve se limitar ao âmbito individual e ao grupo ao qual faz parte, jamais desejar que um dogma de determinada fé, seja compartilhado ou mesmo aceito pelo conjunto da sociedade.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Fez-se vingança, não justiça



Alguém precisa ser inimigo de si mesmo e contrário aos valores humanitários mínimos se aprovasse o nefasto crime do terrorismo da Al Qaeda do 11 de novembro de 2001 em Nova Iorque. Mas é por todos os títulos inaceitável que um Estado, militarmente o mais poderoso do mundo, para responder ao terrorismo se tenha transformado ele mesmo num Estado terrorista. Foi o que fez Bush, limitando a democracia e suspendendo a vigência incondicional de alguns direitos, que eram apanágio do pais. Fez mais, conduziu duas guerras, contra o Afeganistão e contra o Iraque, onde devastou uma das culturas mais antigas da humanidade nas qual foram mortos mais de cem mil pessoas e mais de um milhão de deslocados.

Cabe renovar a pergunta que quase a ninguém interessa colocar: por que se produziram tais atos terroristas? O bispo Robert Bowman de Melbourne Beach da Flórida que fora anteriormente piloto de caças militares durante a guerra do Vietnã respondeu, claramente, no National Catholic Reporter, numa carta aberta ao Presidente:"Somos alvo de terroristas porque, em boa parte no mundo, nosso Governo defende a ditadura, a escravidão e a exploração humana. Somos alvos de terroristas porque nos odeiam. E nos odeiam porque nosso Governo faz coisas odiosas".

Não disse outra coisa Richard Clarke, responsável contra o terrorismo da Casa Branca numa entrevista a Jorge Pontual emitida pela Globonews de 28/02/2010 e repetida no dia 03/05/2011. Havia advertido à CIA e ao Presidente Bush que um ataque da Al Qaeda era iminente em Nova York. Não lhe deram ouvidos. Logo em seguida ocorreu, o que o encheu de raiva. Essa raiva aumentou contra o Governo quando viu que com mentiras e falsidades Bush, por pura vontade imperial de manter a hegemonia mundial, decretou uma guerra contra o Iraque que não tinha conexão nenhuma com o 11 de setembro. A raiva chegou a um ponto que por saúde e decência se demitiu do cargo.

Mais contundente foi Chalmers Johnson, um dos principais analistas da CIA também numa entrevista ao mesmo jornalista no dia 2 de maio do corrente ano na Globonews. Conheceu por dentro os malefícios que as mais de 800 bases militares norte-americanas produzem, espalhadas pelo mundo todo, pois evocam raiva e revolta nas populações, caldo para o terrorismo. Cita o livro de Eduardo Galeano "As veias abertas da A.Latina" para ilustrar as barbaridades que os órgãos de Inteligência norte-americanos por aqui fizeram. Denuncia o caráter imperial dos Governos, fundado no uso da inteligiência que recomenda golpes de Estado, organiza assassinato de líderes e ensina a torturar. Em protesto, se demitiu e foi ser professor de história na Universidade da Califórnia. Escreveu três tomos "Blowback"(retaliação) onde previa, por poucos meses de antecedência, as retaliações contra a prepotência norte-americana no mundo. Foi tido como o profeta de 11 de setembro. Este é o pano de fundo para entendermos a atual situação que culminou com a execução criminosa de Osama Bin Laden.

Os órgãos de inteligência norte-americanos são uns fracassados. Por dez anos vasculharam o mundo para caçar Bin Laden. Nada conseguiram. Só usando um método imoral, a tortura de um mensageiro de Bin Laden, conseguiram chegar ao su esconderijo. Portanto, não tiveram mérito próprio nenhum.

Tudo nessa caçada está sob o signo da imoralidade, da vergonha e do crime. Primeiramente, o Presidente Barak Obama, como se fosse um "deus" determinou a execução/matança de Bin Laden. Isso vai contra o princípio ético universal de "não matar" e dos acordos internacionais que prescrevem a prisão, o julgamento e a punição do acusado. Assim se fez com Hussein do Iraque,com os criminosos nazistas em Nürenberg, com Eichmann em Israel e com outros acusados. Com Bin Laden se preferiu a execução intencionada, crime pelo qual Barak Obama deverá um dia responder. Depois se invadiu território do Paquistão, sem qualquer aviso prévio da operação. Em seguida, se sequestrou o cadáver e o lançaram ao mar, crime contra a piedade familiar, direito que cada família tem de enterrar seus mortos, criminosos ou não, pois por piores que sejam, nunca deixam de ser humanos.

Não se fez justiça. Praticou-se a vingança, sempre condenável."Minha é a vingança" diz o Deus das escrituras das três religiões abraâmicas. Agora estaremos sob o poder de um Imperador sobre quem pesa a acusação de assassinato. E a necrofilia das multidões nos diminui e nos envergonha a todos.

Leonardo Boff é autor de Fundamentalismo,terrorismo, religião e paz, Vozes 2009

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Páscoa



Por: Everton Pereira
Em: Butiá Notícias (22-23/04/2011)

Há uma metáfora dita por um amigo que carrego sempre comigo: “Às vezes é necessário emergir da piscina em que vivemos e olhar acima d’água. Ver o mundo lá fora e respirar o ar puro”. Envoltos em nossa cultura de excessos, de complicações e velocidade, acabamos por perder o foco. Esquecemos de buscar o avesso a tudo isto, que é a simplicidade. Datas como o Natal, a Páscoa e o Ano Novo, por exemplo, são excelentes para parar e refletir um pouco sobre a vida. Sobre a simplicidade perdida. Independente da religião que professamos ou não professamos.

Graças a este mundo das complicações e do consumismo, cada vez mais perde-se o elo com o real significado destas datas. O chocolate, os presentes e as festas ao invés de aproximar, nos distanciam da origem espiritual e reflexiva implícita ou mesmo explícitas nelas. Deixa-se de celebrar o significado, o simbólico, para se festejar o meramente material e mercadológico.

A Páscoa é uma data repleta de simbolismos que vão muito além dos ovos e coelhos, embora estes também sejam metáforas espirituais, mas cooptados pela lógica do consumo. Como uma festa comum a judeus e cristãos, a Páscoa trás em sua gênese o sentido de passagem. A passagem da escravidão para a liberdade no caso do judaísmo e a passagem da morte para a vida, representadas na crucificação e posterior ressurreição de Cristo.

Esta passagem em um sentido mais amplo pode ser compreendida como renascimento, mudança e transformação. Conceitos que podem ser trazidos para o nosso dia-a-dia. Para conquistarmos uma qualidade de vida melhor para nós, para a sociedade e para o Planeta. Nos momentos difíceis, de crise, experimentamos tanto no plano individual como coletivo uma experiência simbolizada pela Sexta-Feira Santa da paixão e morte. Por isso a Páscoa também carrega consigo o sentimento profundo de esperança. Esperança na vida, na derrota da morte, da crise. Esperança na ressurreição do Domingo de Páscoa.

Nossa relação com a Terra, nossa Grande Mãe, por exemplo, está impregnada do sentido da Páscoa. Vivemos em um momento onde literalmente estamos crucificando o Planeta a fim de exauri-lo de seus recursos naturais para saciar nossa sede de posse e de “progresso”. A esperança, o Domingo de Páscoa, reside na mudança de paradigmas. Na transformação de uma cultura do apego e da destruição para uma cultura da simplicidade e da harmonia.

Conta uma antiga história cristã que certa vez um jovem estava em um jardim e teve uma visão de Cristo e o perguntou: "Senhor, quando andavas pelos caminhos da Palestina, disseste que um dia voltarias. Está demorando tanto esta tua volta! Quando, finalmente, retornarás, de verdade, Senhor?”. Depois de uma pausa em silêncio, Cristo respondeu: "Meu irmão, quando para ti, minha presença no universo e na natureza for tão evidente quanto a luz que ilumina este jardim; quando minha presença sob a tua pele e no teu coração for tão real quanto a minha presença aqui e agora; quando não precisares pensar mais nela nem fazeres perguntas como esta que fizeste, então, meu irmão querido, eu terei retornado com toda a minha pompa e com toda a minha glória”. Eis a verdadeira ressurreição presente a cada instante.

Feliz Páscoa!

domingo, 27 de março de 2011

O Homem Que Calculava

Os The Darma Lóvers
Composição : Nenung

Ele jura essa fé estranha
Na pura solidez das aparências
Ele reza pra suas tabelas
Nos garatirem o dia de amanhã

O homem que calculava

Ele leva sua calculadora
Junto ao seu coração
Como um amuleto
Ele olha e ri do infinito
Frente a verdade do que é certo e concreto

Quem perde ou quem ganha
Quem acerta ou apanha
E se o lado que escolho perder
Ficarei eu perdido o que fazer
Se não tenho escolhas
Vê meus dedos em bolhas
De tanto procurar o botão certo e tanto calcular pra ver quem sou

O homem que calculava
(um, dois, três o que será de vocês?)

Ele crê ver átomos em tudo
Ele crê que não há nada além
Ele prega a devoção aos fatos
E vê a vida como um problema exato

Ele crê em relações perfeitas
Mas nunca sobra tempo para comprovar
Que o incerto então será vencido
E a verdade vai deixar se apanhar

Quem perde ou quem ganha
Quem acerta ou apanha
E se o lado que escolho perder
Ficarei eu perdido o que fazer
Se não tenho escolhas
Vê meus dedos em bolhas
De tanto procurar o botão certo e tanto calcular pra ver quem sou

O homem que calculava
(um, dois, três o que será de vocês?)

domingo, 20 de março de 2011

A dança de Shiva



Por EVERTON PEREIRA
Em Butiá Notícias (18-19/03/2011)

Na tradição hindu, Shiva é o deus da transformação. Na maioria das imagens é representado dançando, o que simboliza a eterna e constante mudança que estão sujeitos tanto o universo - a natureza - quanto a vida humana. A mudança, a transformação constante, a impermanência, são atributos de toda a existência. Tudo muda o tempo todo. As nuvens no céu, as estações do ano, o curso da história, nossas bilhões de células. Tudo se renova a cada segundo. Heráclito de Éfaso, filósofo grego, afirmava em 450 a.C. que tudo flui e que nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio. Neste caso não só o rio já teria mudado no segundo banho, por causa de sua eterna correnteza, mas o próprio homem também já não seria o mesmo do primeiro mergulho. Mudamos física, biológica e psicologicamente a cada momento.

Passamos por uma época singular na história da humanidade. As mudanças climáticas e a ocorrência regular de terremotos, enchentes e tsunamis nos depara com a fragilidade da vida humana e da civilização frente a força da natureza. Os cientistas dividem-se quanto a causa de tais fenômenos. Existem aqueles que acreditam ser estes fenômenos mudanças naturais e cíclicas. Que ocorre independente da influência da ação humana. Para estes, a poluição e a destruição causada pela sociedade causaria no máximo desequilíbrios locais, como por exemplo, as chuvas torrenciais e rotineiras em São Paulo. Já a outra corrente afirma que é o modo de vida do homem moderno, extremamente dependente dos recursos naturais e adepto cada vez mais do consumismo desenfreado que está causando desequilíbrios de toda ordem no meio ambiente.

A relevância da causa do problema é sem dúvida muito grande. Sabendo o que cria estas mudanças poderemos, quem sabe, se ainda houver tempo, trabalhar para reverter o quadro. Mas o fato é que se por culpa do homem ou por razões naturais, do próprio ciclo do planeta, estamos sofrendo cada vez mais com a consequência destas transformações e também com a angústia de não sabermos onde será a próxima destruição. Tsunami na Indonésia, terremoto na China, cheias semanais em São Paulo, o desabamento da região serrana do Rio, enchentes em São Lourenço do Sul e no Paraná e agora a catástrofe no Japão, parecem querer mostrar o quanto é frágil nosso modo de vida. Assim como o restante dos seres vivos, estamos também nós submetidos às leis da natureza.

Meditar sobre a impermanência, esta lei que rege como o deus hindu toda a existência, é algo que pode nos deixar mais tranquilos e mais aptos na busca de soluções. Todas as coisas são impermanentes. Tudo muda o tempo todo sem parar. Nada é igual nem por um instante. Nada é estável. Nossa mente, nosso corpo, nossa vida, nosso planeta mudam a toda hora. Nosso sofrimento não vem das mudanças, mas do desejo de que nada mude. A vida é movimento. É causa e efeito. O apego a estabilidade é que nos angustia, porque ela não existe. Compreender isto talvez nos faça enfrentar as mudanças da vida e do planeta com mais sabedoria e paciência. Somente em harmonia com a Terra é que poderemos pensar num futuro sustentável para nós e para todos os seres que habitam este mundo.

sábado, 12 de março de 2011

Yin e Yang: o equilíbrio do movimento



Por Leonardo Boff

A tradição do Tao vê a história como um jogo dialético e complementar de dois princípios: yin e yang, forças subjacentes a todos os fenômenos humanos e cósmicos. Procurando luzes para entender e sair da crise global talvez este olhar holístico dos sábios orientais nos possa inspirar.

A figura de referência para representar estes dois princípios é a montanha. O lado norte, coberto pela sombra, é o yin, que em chinês quer dizer sombreamento e corresponde à dimensão Terra. Ele se expressa pelas qualidades da anima, do feminino nos homens e nas mulheres: o cuidado, a ternura, a acolhida, a cooperação, a intuição e a sensibilidade pelos mistérios da vida.

O yang significa a luminosidade do lado sul e corresponde à dimensão Céu. Ele ganha corpo no animus, as qualidades masculinas no homem e na mulher como o trabalho, a competição, o uso da força, a objetivação do mundo, a análise e a racionalidade discursiva e técnica.

A sabedoria milenar do Taoísmo ensina que estas duas forças devem ser balanceadas para que o caminhar das coisas se faça de forma, a um tempo, dinâmica e harmônica. Pode ocorrer que uma predomine sobre a outra, mas importa buscar, o tempo todo, o equilíbrio difícil entre elas.

O yin e o yang remetem a uma energia mais originária, um círculo que contem a ambos: o Shi. O Shi é a energia cósmica que tudo sustenta, penetra e move A teologia yorubá e nagô, tão presentes na Bahia, ensina que essa energia é o Axé universal, com as mesmas funções do Shi. Os cristãos falam do Spiritus Creator, ou do Sopro cósmico, que enche e dinamiza toda a criação. Os modernos cosmólogos se referem à constante cosmológica que é Energia de fundo que produziu aquele minúsculo ponto que se inflacionou e depois explodiu – big bang – dando origem ao nosso universo. Após esta incomensurável explosão a Energia de fundo se desdobrou nas quatro forças fundamentais que atuam sempre juntas e que subjazem a todos os eventos – a energia gravitacional, eletromagnética, nuclear fraca e forte – para as quais não existe, na verdade, nenhuma teoria explicativa.

Nossa cultura ocidental, hoje globalizada, rompeu esta visão integradora e dinâmica. Ela enfatizou tanto o yang que tornou anêmico o yin. Por isso, permitiu que o racional recalcasse o emocional, que a ciência se inimizasse com a espiritualidade, que o poder negasse o carisma, que a concorrência prevalecesse sobre a cooperação e a exploração da natureza descurasse o cuidado e o respeito devidos. Este desequilíbrio originou o antropocentrismo, o patriarcalismo, a pobreza espiritual, a cultura materialista e predadora e a atual crise ecológica global.

Somente com a integração da força do yin, da anima, da logique du coeur (Pascal), do mundo dos valores, corrigindo a exacerbação do yang, do animus, do espírito de dominação, podemos proceder às correções necessárias e dar um novo rumo ao nosso projeto planetário.

Na tradição do cânon ocidental expressamos o mesmo fenômeno do yin e do yang referindo-nos a duas figuras mitológicas: Apolo e Dionísio.

A dimensão Apolo está no lugar da ordem, da razão, da disciplina, numa palavra da lei do dia sob a qual se rege a sociedade organizada. A dimensão Dionísio representa a liberdade face às leis, a coragem de violar interditos, a exaltação da alegria de viver e a inauguração do novo, numa palavra, a lei da noite, que é o momento em que as censuras caem e tudo fica gris e indefinido.

Atualmente vivemos uma conjuntura toda particular, marcada pelo excesso. Perdemos a coexistência do yin com o yang, de Apolo com Dionísio. Se não encontrarmos um ponto de equilíbrio tudo pode acontecer, até um flagelo antropológico. Precisamos de uma loucura sábia que possibilite uma nova síntese entre esses dois pólos para reinventar um novo caminho que nos garanta o futuro.

Leonardo Boff é autor de Etica da vida: a nova centralidade, Record 2009.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Ateus norte-americanos querem apagar Deus das notas de dinheiro



Uma tentativa de retirar o lema “In God we trust” (“Confiamos em Deus”) das notas do dólar norte-americano fracassou na segunda-feira ao ser rejeitada pela Corte Suprema deste país.

O demandante, um dos ativistas ateus mais conhecidos do país, o advogado Michael Newdow, sustenta que essa mensagem é discriminatória ao promover uma religião monoteísta.

Por telefone, Newdow afirmou ao BBC Mundo que os Estados Unidos promovem a ideia de que crer em Deus é bom.

No momento, não conhecemos os motivos dos magistrados da Corte Suprema, já que ao se recusarem a estudar a demanda, não tiveram que argumentar sobre a sua decisão. Contudo, uma instância judicial inferior em San Francisco havia recusado a pretensão porque considerou que a frase “Confiamos em Deus” é cerimonial e patriótica, e não proclama a oficialidade de nenhuma religião, algo proibido pela Constituição norte-americana.

O lema aparece nas moedas norte-americanas desde os anos 70 do século XIX e nas notas de dólar desde os anos 50 do século passado, quando foi instituído por lei como um dos lemas oficiais.

Newdow, que dirige a associação de ateus FACTS, acredita que a discriminação contra os ateus é similar à que sofreram em outros momentos da história norte-americana mulheres, homossexuais ou negros.

“Promove-se o modelo do bom cidadão”, afirma Newdow, que é conhecido nos Estados Unidos porque recorreu, sem sucesso, contra a constitucionalidade do Juramento de Lealdade recitado por todos os alunos norte-americanos e que também faz menção a Deus.

“Eu respondo àqueles que me dizem que conservar essa mensagem em nossas notas ou esse ritual matutino em nossas escolas não prejudica a ninguém, que, pelo contrário, eliminá-los também não é prejudicial, mas então é quando todos se levam as mãos à cabeça”.

A divisa “Confiamos em Deus” tem uma aceitação quase unânime. Segundo uma pesquisa de 2003 do Instituto de Pesquisas Gallup, 90% dos norte-americanos veem com bons olhos a presença deste lema em moedas e notas de dólar.
O advogado, entretanto, não se rende e assegura que apesar deste revés judicial vai entrar com uma nova demanda para que o caso seja reconsiderado.

A reportagem é da Agência BBC. A tradução é do Cepat.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Conto Zen: Por que palavras?

Um monge aproximou-se de seu mestre — que se encontrava em meditação no pátio do templo à luz da Lua — com uma grande dúvida:

"Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório; e diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os sutras e as recitações são feitas de palavras; que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o Dharma está além dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?"

O velho sábio respondeu: "As palavras são como um dedo apontando para a Lua; cuida de saber olhar para a Lua, não se preocupe com o dedo que a aponta."

O monge replicou: "Mas eu não poderia olhar a Lua, sem precisar que algum dedo alheio a indique?"

"Poderia," confirmou o mestre, "e assim tu o farás, pois ninguém mais pode olhar a lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A Lua está e sempre esteve à vista. O Dharma é eterno e completamente revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o Primeiro Princípio."

"Então," o monge perguntou, "por que os homens precisam que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?"

"Porque," completou o sábio, "da mesma forma que ver a Lua todas as noites faz com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como fato consumado, assim também os homens não confiam na verdade já revelada pelo simples fato dela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Desta forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que é necessário."

O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então, de súbito, simplesmente apontou para a lua.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

A aldeia comum...



Por: LEONARDO BOFF

"Hoje nos encontramos numa fase nova na humanidade. Todos estamos regressando à Casa Comum, à Terra: os povos, as sociedades, as culturas e as religiões. Todos trocamos experiências e valores. Todos nos enriquecemos e nos completamos mutuamente. (...)

(...) Vamos rir, chorar e aprender. Aprender especialmente como casar Céu e Terra, vale dizer, como combinar o cotidiano com o surpreendente, a imanência opaca dos dias com a transcendência radiosa do espírito, a vida na plena liberdade com a morte simbolizada como um unir-se com os ancestrais, a felicidade discreta nesse mundo com a grande promessa na eternidade. E, ao final, teremos descoberto mil razões para viver mais e melhor, todos juntos, como uma grande família, na mesma Aldeia Comum, generosa e bela, o planeta Terra."


Casamento entre o céu e a terra. Salamandra, Rio de Janeiro, 2001.pg09

O inferno

Por: RUBEM ALVES

Você me pergunta se eu acredito na existência do inferno, o lugar onde Deus aprisiona as almas condenadas por toda a eternidade em sofrimentos sem fim. Eu não responderei. Contarei uma estória e você chegará à sua própria conclusão.

Era uma vez um velhinho simpático que morava numa casa cercada de jardins. O velhinho amava os seus jardins e cuidava deles pessoalmente. Na verdade fora ele que pessoalmente o plantara - flores de todos os tipos, árvores frutíferas das mais variadas espécies, fontes, cachoeiras, lagos cheios de peixes, patos, gansos, garças. Os pássaros amavam o jardim, faziam seus ninhos em suas árvores e comiam dos seus frutos. As borboletas e abelhas iam de flor em flor, enchendo o espaço com as suas danças. Tão bom era o velhinho que o seu jardim era aberto a todos: crianças, velhos, namorados, adultos cansados. Todos podiam comer de suas frutas e nadar nos seus lagos de águas cristalinas. O jardim do velhinho era um verdadeiro paraíso, um lugar de felicidade.

O velhinho amava a todas as criaturas e havia sempre um sorriso manso no seu rosto. Prestando-se um pouco de atenção era possível ver que havia profundas cicatrizes nas mãos e nas pernas do velhinho. Contava-se que, certa vez, vendo uma criança sendo atacada por um cão feroz, o velhinho, para salvar a criança, lutou com o cão e foi nessa luta que ele ganhou suas cicatrizes.

Os fundos do terreno da casa do velhinho davam para um bosque misterioso que se transformava numa mata. Era diferente do jardim, porque a mata, não tocada pelas mãos do velhinho, crescera selvagem como crescem todas as matas. O velhinho achava as matas selvagens tão belas quanto os jardins. Quando o sol se punha e a noite descia, o velhinho tinha um hábito que a todos intrigava: ele se embrenhava pela mata e desaparecia, só voltando para o seu jardim quando o sol nascia. Ninguém sabia direito o que ele fazia na mata e estranhos rumores começaram a circular. Os seres humanos têm sempre uma tendência para imaginar coisas sinistras. Começaram, então, a espalhar o boato de que o velhinho, quando a noite caía, se transformava num ser monstruoso, parecido com lobisomem, e que na floresta existia uma caverna profunda onde o velhinho mantinha, acorrentadas, pessoas de quem ele não gostava, e que o seu prazer era torturá-las com lâminas afiadas e ferros em brasa. Lá - assim corria o boato - o velhinho babava de prazer vendo o sofrimento dos seus prisioneiros.

Outros diziam, ao contrário, que não era nada disto. Não havia nem caverna, nem prisioneiros e nem torturas. Essas coisas existiam mesmo era só na imaginação de pessoas malvadas que inventavam os boatos. O que acontecia era que o velhinho era um místico que amava as florestas e ele entrava no seu escuro para ficar em silêncio, em comunhão com o mistério do universo.

Você decide. Você decide em que versão acreditar. Note bem: ninguém jamais entrou na floresta escura. Tudo o que há são fantasias de homens: fantasias de homens cruéis e vingativos. Fantasias de homens movidos pelo amor.

Se você se decidir a acreditar que o velhinho tem uma câmara de torturas que lhe dá prazer, então você tem de acreditar também que ele é um monstro igual aos torturadores que brincam com as crianças durante o dia e torturam pessoas indefesas durante a noite. Sua bondade diurna não passa de uma farsa. Eu não poderia amar um velhinho assim. Você poderia? Diante de um velhinho assim a gente sente é horror, jamais amor. Quem acredita que Deus tem uma câmara de torturas eterna não pode amá-lo. Só pode temê-lo. Mas como Deus é amor, aquilo que é temido não pode ser Deus. Só pode ser o Diabo.

Mas, se você acreditar que a tal câmara de torturas não passa de uma invenção do coração malvado dos homens, então você amará o velhinho cada vez mais.

Você entendeu: essa estória é uma parábola sobre Deus. Quem acredita no inferno está, na realidade, acreditando em coisas horrendas sobre Deus. A questão crucial, portanto, nessa pergunta sobre a existência do inferno, é: o que é que você pensa de Deus? Imagino que o velhinho deve ter chorado amargamente quando ficou sabendo os boatos que os homens estavam espalhando sobre ele. Acho que Deus chora também quando os religiosos, que se dizem a seu serviço, espalham esses boatos de que ele se diverte com o sofrimento dos presos na sua câmara de torturas. Se o velhinho não fosse tão bom, acho que seria esses que ele enviaria para uma temporada de curta duração no inferno, se ele existisse...

(Transparências da eternidade, Verus, 2002)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O equilibrista mantém o equilíbrio se equilibrando - Paz Santa



Por: Monja Coen Sensei

Como diferenciar entre a voz de Deus e as nossas vozes pequenas, egoístas, limitadas?

As religiões são o quê? Fontes de poder e disputas ou fontes de sabedoria misericordiosa? Qual delas a melhor, a mais correta, a verdadeira? Ou será que cada uma pode corresponder às necessidades dos diferentes seres humanos, com suas diversas capacidades de compreensão, cultura, linguagem, sistema, época? Que força elas possuem, capazes de movimentar multidões para o que seus lideres dizem ser a vontade divina? Será que queremos todos seguir essa vontade divina e nem sabemos mais qual vontade é esta?

Os mártires vão para o Paraíso... Muitos já se foram, desde Roma antiga... Onde estão eles, elas agora, no mesmo paraíso? E quais mártires? Seriam aqueles que matam, destroem, odeiam, discriminam em nome do inominável? Ou aqueles que silenciosamente vagam vivos-mortos e mortos-vivos pelos escombros das nossas loucuras pensadas e impensadas?

O que é o Paraíso, onde fica? Alem do alem? Alem da vida? Ou poderemos juntos abrir essa porta secreta, invisível, aqui ao nosso alcance, mais próxima do que o ar na Terra?

Nos podemos viver em Paz, na paz, pela paz, com paz... Nos podemos, nos temos capacidade de compreender, temos capacidade de ir alem das diferenças de linguagem, cultura, cor, conceitos... Podemos juntos penetrar na verdade que somos, que eh em cada ser em cada arvore e pequena folha, em cada pedregulho e grande montanha, em cada gota de orvalho, em cada lagrima e nos oceanos..

Shhh. É preciso aquietar a mente, o coração, os lábios... É preciso silenciar. Transformar em amor e carinho os revoltados turbilhões de confusão que todos nos criamos. Somos todos igualmente responsáveis. Presidente Bush e Osama bin Laden, eu e você. Todos nós igualmente temos a mesma capacidade de sabedoria, de discernimento, de escolha, a mesma responsabilidade pelo que nos acontece, pelo que acontece no mundo. O que nos impede de escolher a Verdade? O que nos faz ouvir uma voz menor e segui-la como se fosse a maior? Quando iniciaremos nossa caminhada harmoniosa para o bem de todos os seres? Já é hora. Vamos dar as mãos, cantar a ciranda de cuidar da Terra. Abandonar as armas, os canhões e os gritos de batalha. Abandonar o medo da mudança verdadeira e profunda de toda humanidade. Vamos transformar a raiva em compaixão, a ganância em doação, a ignorância em sabedoria e dançarmos juntos no circulo da Paz e da Harmonia.

Alguém comentou que os Estados Unidos exportam semanalmente muitos vídeos pornográficos para os paises islâmicos... Quem os importa, quem os compra? Quem se importa com as vendas de armamentos bélicos? Será que são comprados para serem queimados, destruídos, a fim de que ninguém se corrompa? Que ninguém se fira? Como pode uma cultura julgar a outra a partir de seus valores? E quais são os valores comuns a todos nos, qual é a Ética que transcende culturas, religiões, povos, tempo e espaço?

O mundo é globalizado... Não esta se globalizando. É. Independentemente das tecnologias, das Internets, das televisões, dos rádios... O mundo é um. Uma esfera se transformando a cada instante com todo este universo. Dinâmico. Nada estático... Nossos valores, nossas religiões, mesmo as mais antigas, são apenas modernidades.
Por que nos fecharmos em grupos? E subgrupos e subsubgrupos que se digladiam entre si, cada um se dizendo o justo, o correto, o filho de Deus?
Teremos medo da Paz e da Reconciliação?

Temos medo de ceder, de conciliar, de encontrar meios pacíficos, respeitosos, cuidadosos de resolver conflitos? Por que? Será que, falando incessantemente ainda não conseguimos ouvir a Voz O que diz a Voz, verdadeira voz de amor, compreensão e transformação do bem pelo bem com o bem para o maior numero de seres?)
Quem escondeu o coração de Paz? Qual o preço do seu resgate? Não são vidas nem de soldados nem de civis, nem de velhos nem de jovens, nem de mulheres nem de homens, nem de crianças nem de animais. O valor de seu resgate não esta em ouro, prata, petróleo, tijolos nem casas.

Aonde se esconderam os verdadeiros valores da vida? Ainda eh tempo de encontra-los. Rápido. Vamos procura-los no mais intimo de nos mesmos para recebermos de volta o bem e a Paz.

Para onde foram, aonde se esconderam? Não estamos procurando por Osama Bin Laden e os terroristas, nem culpando a política externa dos Estados Unidos - todos sintomas de um mal maior, que nos contaminou. Que vírus terrível. Quem o teria infiltrado entre nos humanos? . Precisamos encontrar as causas e transforma-las em outras causas para com novas condições termos outros efeitos. Aonde foi que se perdeu a capacidade de compreender, de amar, de nos respeitarmos mutuamente, mesmo nas diferenças? Compaixão aonde você se esconde? Revele-nos sua face. Talvez uma lagrima longa e continua - de um Ser bondoso e carinhoso, que vendo nossa triste condição, caia como néctar sobre todos nos. Talvez possamos despertar. Talvez possamos nos respeitar e nos cuidar. Como o bom pai cuida da esposa, dos filhos, da casa, dos vizinhos, dos amigos. Como a boa mãe cuida de todos. Como o bom filho, a boa filha cuidam dos pais, dos irmãos, da casa... Nossa casa, nossos irmãos, nossos pais estão em toda nossa volta. São todos que encontramos.

Se chamarmos a Paz ela vira. Através da própria Paz.
Se chamarmos a Compaixão ela vira. Através da própria Compaixão.
Se chamarmos a Verdade ela se manifestara. Através da própria Verdade.

Um pouco de espiritualidade...



De: Walt Whitmann

Quero fazer os poemas das coisas materiais,
pois imagino que esses hão de ser
os poemas mais espirituais.
E farei os poemas do meu corpo
E do que há de mortal.
Pois acredito que eles me trarão
Os poemas da alma e da imortalidade.
E à raça humana eu digo:
-Não seja curiosa a respeito de Deus,
pois eu sou curioso sobre todas as coisas
e não sou curioso a respeito de Deus.
Não há palavra capaz de dizer
Quanto eu me sinto em paz
Perante Deus e a morte.
Escuto e vejo Deus em todos os objetos,
Embora de Deus mesmo eu não entenda
Nem um pouquinho...
Ora, quem acha que um milagre alguma coisa demais?
Por mim, de nada sei que não sejam milagres...
Cada momento de luz ou de treva
É para mim um milagre,
Milagre cada polegada cúbica de espaço,
Cada metro quadrado de superfície
Da terra está cheio de milagres
E cada pedaço do seu interior
Está apinhado de milagres.
O mar é para mim um milagre sem fim:
Os peixes nadando, as pedras,
O movimento das ondas,
Os navios que vão com homens dentro
- existirão milagres mais estranhos?

A forma do barro



Por EVERTON PEREIRA

Nos tempos da faculdade tinha na capa de meu caderno um poema do Paulo Leminski - um dos grandes da poesia brasileira. “O que o barro quer” era o nome do poema que dizia: “O barro toma a forma que você quiser / você nem sabe estar fazendo apenas o que o barro quer”. Era uma espécie de lembrete cotidiano sobre a força que o mundo tem sobre nossas vidas, mas também sobre o poder de transformação que cada um de nós tem neste mesmo mundo e principalmente em nossas próprias vidas. Mais que uma afirmação política ou filosófica, era uma visão estética, artística, criativa do poeta a respeito vida. Nós como artistas e a vida como obra de arte, tal como o oleiro trabalhando o barro. Dando-lhe forma, significado, conteúdo. Moldando-a.

Com a cultura da pressa na qual vivemos, esquecemos que somos sujeitos de nossa história. Histórias pessoais de amores fracassados ou bem amados. De amizades. De Famílias de sangue e de escolha. Histórias de conquistas profissionais e superações pessoais. Mas histórias também coletivas, dessas que mudam um pouco - nem que seja - o curso desta mesma história. Esquecemos, portanto que somos sujeitos. Aquele que dá a forma ao barro. Contentamo-nos com a condição de objetos, os que fazem o que o barro quer.

No budismo diz-se que o homem é senhor de sua própria vida, que não há força ou ser superior capaz de intervir como senhor de seu destino. Forte, não? Faz recair sobre nossos ombros uma responsabilidade com a qual não estamos preparados. A palavra karma, por exemplo, utilizada por hindus, budistas e espíritas, que vem do antigo idioma sânscrito significa ação. Ação que gera causa e efeito. Nada a ver com a conotação de fardo, destino ou mesmo maldição que muitos erroneamente a dão. Agir, forjar o barro, a vida. Dar a eles a forma que queremos. Do mesmo modo que na cultura africana Ogum é o ferreiro, aquele que forja não o barro, mas o metal. Dando-lhe a forma que deseja. Um orixá guerreiro, que faz seu próprio destino. Forja sua própria vida como o metal com o qual trabalha.

No cristianismo também se fala do livre arbítrio, a liberdade de moldar o barro a nossa vontade, assumindo suas conseqüências. Até os céticos, os ateus, têm um pouco do oleiro também. Talvez até mais: ao pegar para si toda a responsabilidade da vida, dispensando a fé e o refúgio em um ser superior, acabam crendo na ação, somente nela. Ação, karma, responsabilidade. Tudo isso depende de nós. Como um pintor pintando um auto-retrato. Somos artistas, oleiros de nós mesmos. Basta analisar nossas trajetórias individuais. Desde criança, mesmo que inconscientemente fomos criando “alguém” que chamamos de “eu”. Com desejos, preferências, personalidade e angústias. Se no passado nos criamos sem pensar, podemos agora planejar cada passo desta dança chamada vida.

Construímos o futuro no presente, por isso ele tem este nome. É um presente! Dado a cada dia com uma nova chance. Na série sobre a vida do médium espírita Chico Xavier, transmitida semana passada na TV, uma das frases ditas por ele que mais me marcou foi esta: “O passado, não podemos mudá-lo, mas cada um pode recomeçar e escrever um novo futuro”. Tomemos as rédeas de nossa existência. Sejamos o que dá a forma ao barro e não o que é moldado por ele.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Parabéns ACUAXO!



SOLIDARIEDADE E AXÉ

Publicado no Butiá Notícias Edição 632 de 30 e 31 de dezembro de 2010.

“As várias religiões que existem são como galhos, Deus é a árvore”. É desta forma, carregada de ecumenismo e tolerância, que ouvi várias vezes esta afirmação sair da boca de José Honório Dias de Oliveira, o “Pai Honório de Xangô”, enquanto assistia suas conversas com seus filhos ou o entrevistava para meu trabalho de pós-graduação em História Africana e Afro-Brasileira. Não sou praticante de nenhuma religião em particular - apesar de não ser ateu - mas a forma leve e sem proselitismo que as religiões afro-brasileiras lidam com a diversidade religiosa é algo que deve ser respeitado e admirado em um mundo com tantos conflitos em nome da “fé” e de “Deus”.
O que me levou a estudar a história da África e dos afro-brasileiros foi meu desejo de entender um pouco mais nosso povo. Acredito que não há como compreender o Brasil sem levar em consideração os 400 anos de escravidão e sua herança viva na história de nosso país até hoje. Trilhando este caminho fui parar na questão das mentalidades e dela, na cultura e na religiosidade. Compreendendo a fé de um povo, se compreende como ele pensa, vê, traduz e constrói o mundo em que vive. Assim entendemos melhor o porquê dele agir desta ou daquela maneira.

Ao longo deste estudo percebi o quanto as religiões de matriz africana como o Batuque, a Umbanda e a Quimbanda se preocupam com a questão da solidariedade e da caridade, a exemplo de outras tradições religiosas como o Espiritismo, o Catolicismo e os Evangélicos. Desta forma foquei ainda mais o objeto de minha pesquisa, que ainda não acabou, e descobri uma rede social rica em cooperação e espírito coletivo que muitas vezes devido ao preconceito, passa despercebida da maioria da população.
A Associação do Centro Umbandista e Africanista Xangô e Oxum (ACUAXO) presidida atualmente pelo amigo José Carlos Marcolino da Silva, o popular Zé Marcolino, é a entidade que organiza as ações sociais e espirituais do centro religioso de Honório de Xangô. Com mais de 200 famílias carentes cadastradas, somente na Festa de Natal deste ano, ocorrida dia 22, foi feita a entrega de 150 cestas básicas. Para as quase 500 crianças presentes foram distribuídos cachorros quentes, doces e brinquedos. Mas o trabalho social desempenhado pela associação não se restringe aos meses de dezembro. Ao longo de todo ano famílias carentes procuram a entidade na busca de alimentos, remédios e amparo espiritual e psicológico. A carência é de toda ordem e a associação, como tantas outras existentes na cidade, acaba por complementar o papel do poder público.

Escrevo sobre este assunto nesta última coluna de 2010 para que o exemplo dado ano após ano pela família ACUAXO, seu Babalorixá e filhos de santo seja multiplicado por outras entidades e grupos sociais, sejam eles religiosos ou não. Ajudar ao próximo faz bem a alma. Alma que segundo a tradição africanista foi criada por um mesmo Deus, comum a todas as religiões. Deus que muda de nome, de cor, de imagem, de povo e de história, mas que tem na solidariedade uma das suas mais fiéis manifestações. Parabéns a ACUAXO e um 2011 com muito Axé a todos!

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Olurun Eke e a República incompleta

No Dia da Consciência Negra, é preciso repudiar a História do Brasil como um suceder de arranjos, combinações, "jeitinhos" em que o conflito nunca aparece ou, se vem à tona, é considerado como "coisa externa à nossa gente".

Gilson Caroni Filho

Ao incluir o Dia da Consciência Negra no calendário escolar, a lei 10.639, de 9 de janeiro de 2003, não propiciou apenas um resgate da história dos povos negros. Foi bem além. Ensejou a necessidade de um novo olhar sobre culturas que, ao contrário da postulação ocidental, não colocam a questão da Verdade, de conteúdos absolutos e inarredáveis, de essências escondidas atrás de formas ou aparências. Sua riqueza é de outra ordem. E talvez este seja o signiRficado mais profundo do dia 20 de novembro: memória e resistência como possibilidades históricas.

Para os que estudam a cultura afro-brasileira, é importante registrar a dinâmica de suas origens. Nelas, observamos uma espécie de culto da forma pela forma, algo como a valorização das dimensões plásticas. Seus mitos, rituais, danças, jogos e orações não remetem a quaisquer referências que lhes sejam exteriores, não expressam "outra coisa", não são aparências de uma essência. Portanto não podem ser “decifrados”, “interpretados" ou "descobertos", como ainda pretendem algumas de nossas teorias da cultura, herdeiras do ranço etnocêntrico do velho colonizador.

É o que apreciamos na aparentemente inconciliável visão de mundo que parece existir em alguns poetas negros, como Solano Trindade (1908-1974). Em versos como "A minha bandeira/ É da cor de sangue/ Olurun Eke/ Da cor da revolução/ Olurun Eke", há uma estranheza que parece apontar para ausência de sentido lógico. Pura ilusão. O que lemos são instantes culturais, sínteses de uma vida vivida, de um artista ao sentir a realidade trágica do que é ser negro, também no Brasil.

Na verdade, do ponto de vista dos afro-descendentes, as expressões artísticas são mais para serem percebidas sensorialmente, vistas com a Alma, do que para serem "entendidas". Existe, portanto, uma defasagem entre aquilo que se quer dizer de um lado, e o que se consegue transmitir na realidade. É exatamente neste espaço que o negro brasileiro consegue criar as coisas mais bonitas de sua produção simbólica e de maior valor para sua negritude.

Ser negro no Brasil de 2010 é, culturalmente, assumir a Alma Popular: é pensar a partir do ponto de vista do povo. É, sobretudo, estabelecer sintonia ideológica com as classes sociais que foram exploradas durante nossos 510 anos de história. O grande saque que se iniciou com a invasão portuguesa, por causa do pau-brasil, continuou e prosperou até depois da Independência, sempre a beneficiar os brancos. Consolidou-se com a Abolição/Proclamação da República, e continua até os nossos dias.

No terceiro milênio, da perspectiva do negro, a paz, objetivo perseguido por toda a espécie humana, passa necessariamente pela resolução dos problemas que o grande saque, ocidental e cristão, criou para a negritude. No Dia da Consciência Negra, é preciso repudiar a História do Brasil como um suceder de arranjos, combinações, "jeitinhos" em que o conflito nunca aparece ou, se vem à tona, é considerado como "coisa externa à nossa gente".

O processo de desestruturação do mito da “democracia racial” no campo teórico tem avançado muito nos últimos anos. Já no terreno social e da luta política, apesar das políticas públicas implementadas recentemente, o atraso ainda é considerável. Por isso, é necessário resgatar a memória histórica dos negros, em todos os tempos e sentidos. Olurun Eke, para que a República seja proclamada em definitivo.