Mostrando postagens com marcador Meio Ambiente. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Meio Ambiente. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Fórum Social: assembleia de movimentos convoca marcha global



Mobilização contra o capitalismo e por mais justiça ambiental e social está programada para 5 junho. Objetivo é marcar posição sobre a Rio+20, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável. Em plenária no Fórum Social Temático, movimentos debatem dificuldade de achar pauta comum e de impor derrotas reais ao capital.
Najla Passos

Porto Alegre - Em 5 de junho, Dia Internacional do Meio Ambiente, os movimentos sociais de todo o mundo vão ocupar as ruas em uma grande jornada de mobilização global contra o capitalismo e em defesa da justiça ambiental e social. A agenda foi aprovada neste sábado (28), na Assembleia dos Movimentos Sociais, realizada durante o Fórum Social Temático, em Porto Alegre.

A jornada terá o propósito de demarcar a posição dos movimentos sobre as questões ambientais e sociais que serão discutidas, 15 dias depois, na Rio + 20, pelos chefes de estado dos 192 países que participam da Organização das Nações Unidas (ONU).

“A tentativa de esverdeamento do capitalismo, acompanhada pela imposição de novos instrumentos da ‘economia verde’, é um alerta para que nós, dos movimentos sociais, reforcemos a resistência e assumamos o protagonismo na construção de verdadeiras alternativas à crise”, dizem as entidades, no documento que aprovaram no encontro.

Cerca de 1,5 mil pessoas de 30 países participaram da plenária dispostas a enfrentar dois dos grandes desafios impostos, hoje, à esquerda mundial: construir uma pauta unificada de lutas e mobilizar as populações para garantir a imposição de derrotas reais ao capital.

O primeiro, foi cumprido. Apesar das diversas propostas, os movimentos conseguiram definir eixos comuns para a luta. O segundo desafio dependerá da capacidade de mobilização em cada país.

“Temos que ser mais criativos para envolver as massas. Sem isso, não teremos força para derrotar o capitalismo nesta crise que assola os povos do mundo”, provocou um dos coordenadores da Via Campesina e do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, na abertura da plenária.

De acordo com ele, o mundo vivencia a mais grave e longa crise econômica da história, o poder decisório se desvinculou do poder político para se concentrar nas mãos do capital e a burguesia continua controlando os meios de comunicação, utilizando-os para manipular os trabalhadores, cada vez mais desmobilizados. “As massas de trabalhadores estão apáticas. E esse é um problema nosso, que temos que enfrentar”, afirmou.

Nos discursos dos representantes das entidades nacionais e internacionais, ficou evidenciado o quanto a unificação da agenda e a priorização dos eixos defendidos não é uma tarefa fácil.

O sindicalista cubano José Miguel, representante da Central de Trabalhadores de Cuba (CTC), ressaltou a necessidade de construção de alternativas e propostas dos movimentos sociais para a Cúpula dos Povos, a conferência que os movimentos sociais realizarão paralela à Rio + 20.

O secretário-geral da Confederação dos Trabalhadores da Argentina (CTA), Carlos Chile Huerta, citou o processo de recessão mundial para ressaltar a importância da rearticulação do campo popular para reposicionar o poder político no continente nas mãos dos trabalhadores.

O presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Daniel Iliescu, criticou a distribuição do orçamento federal. “Temos que acabar com crime de destinar quase 50% do orçamento do governo para o pagamento da dívida pública. Queremos 10% do PIB [Produto Interno Bruto] para a Educação”, afirmou.

Representando a Organização Infanto-Juvenil Sementes da Pátria, da Venezuela, o estudante Luiz Ramirez defendeu prioridade para a luta contra o imperialismo norte-americano. “A América Latina, em especial, vive um momento muito rico, com governos de esquerda, e precisa articular ações de mobilização para avançar rumo ao socialismo.”

Membro da Coordenação Internacional do Comitê Internacional Palestina Livre e líder de uma organização de boicote a Israel, Jamal Juma pediu apoio prioritário à luta histórica pela soberania do país, há 63 anos ocupado por tropas israelenses. Segundo ele, haverá uma grande mobilização mundial em 29 de novembro pela causa palestina.

O argentino Manoel Bertoldi, da Frente Popular Dario Santilhan, lembrou da importância da luta internacionalista e cobrou apoio à luta do povo hondurenho pelos direitos humanos.

Pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, o cacique Uilton Tuxá cobrou o reconhecimento das etnias como povos originários. “Não queremos ser tratados nem como selvagens e nem como mestiços”, afirmou.

Representando a Frente Nacional Contra a Privatização da Saúde, Maria Valéria Costa Correa retomou a defesa dos princípios da reforma sanitária, que propõe saúde pública e universal. “Precisamos defender o maior sistema público de saúde do mundo, que é o brasileiro”, disse ela.

O líder sindical tunisiano Alaa Talbi dividiu com os presentes a experiência que vivenciou durante a Primavera Árabe e destacou a importância da democratização dos demais países árabes, com o fim da corrupção, a garantia de emprego e direitos sociais e emancipação da mulher.

Representando a Central Única dos Trabalhadores (CUT), Rosane Bertotti explicou que o documento final lista bandeiras comuns aos movimentos, como a defesa do desenvolvimento sustentável e solidário, da reforma agrária, da agricultura familiar, do trabalho decente, da luta pela educação e pela saúde.

“Rejeitamos a forma como o capitalismo se reinventa na proposta de uma economia verde. Entendemos que, para mudar a realidade, não é só pintar de verde, é garantir direitos, liberdade de organização, democracia, proteção social”, disse.


Fotos: Valter Campanato/ABr

Fórum Social Temático: crise capitalista e justiça social e ambiental




Por: EVERTON PEREIRA
Em: Butiá Notícias (27-28/01/2012)

Desde a terça-feira 24, as organizações envolvidas com o processo do Fórum Social Mundial iniciaram um processo de debate que tem como foco a crise do sistema capitalista iniciada em 2008 e os problemas ambientais enfrentados pela humanidade. O evento chamado de Fórum Social Temático (FST) acontece concomitantemente em Porto Alegre, Canoas, São Leopoldo e Novo Hamburgo e terá seu encerramento neste domingo dia 29. Uma das funções do FST é a preparação para a Rio+20, conferência das Nações Unidas sobre desenvolvimento sustentável, marcada para junho deste ano no Rio de Janeiro ao mesmo tempo em que busca tornar claras as contradições próprias do sistema capitalista com a produção de desigualdades sociais extremas e a destruição do meio ambiente. O pontapé inicial ocorreu no início da manhã da terça, com uma palestra de José Graziano, recém-empossado diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), no Palácio Piratini.

Mesmo sem a pretensão de ser uma reunião mundial, o evento receberá centenas de estrangeiros. A presidente Dilma Rousseff também veio e com ela sete ministros para atividades sobre a crise internacional, o combate à pobreza e a Rio+20 bem como o presidente uruguaio José Mujica, que junto a presidente brasileira, realizou na quinta-feira, o ato “Diálogo entre a Sociedade Civil e o Governo”, quando uma delegação de militantes petistas de Butiá prestigiaram o evento. O Fórum Temático terá 900 atividades, entre palestras, oficinas, seminários e apresentações artísticas. Paralelo ao FST acontece também o Fórum Mundial de Educação. Um dos eventos mais aguardados do Fórum Mundial de Educação ocorrerá no dia 27, quando acontece um debate entre a militante estudantil chilena Camila Vallejo, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos e a ministra Maria do Rosário (Direitos Humanos).

Além disso, o FST terá feiras de economia solidária, praças de alimentação natural e o Acampamento Intercontinental da Juventude, no Parque Harmonia, em Porto Alegre. Ao todos, os organizadores esperam a participação de mais de 40 mil pessoas. Até pelo fato de ocorrer simultaneamente em quatro cidades distintas, a descentralização será uma das marcas do FST 2012. Em Porto Alegre, as atividades foram realizadas principalmente na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Usina do Gasômetro, Assembleia Legislativa, Câmara de Vereadores, Memorial do Rio Grande do Sul, Jardim Botânico, Cais do Porto e Casa de Cultura Mário Quintana. Em Canoas, as atividades ocorrerão na Unilasalle, Paço Municipal e Parque Eduardo Gomes. Em São Leopoldo, a sede do Fórum será o Centro de Eventos da cidade. Já em Novo Hamburgo, as atividades acontecerão nos pavilhões da FENAC, onde aconteceu no dia 25 um dos mais importantes debates do evento que foi: “Sustentabilidade Urbana”. Uma discussão sobre a aparente contradição entre o crescimento das cidades e a preservação do meio ambiente. O grande desafio para o FST e o mesmo imposto ao Fórum Social Mundial: intervir com suas propostas e deliberações na realidade imposta pelo sistema capitalista e se não modificá-lo plenamente - transformando em algo para além dele mesmo - ao menos que o torne mais esperançoso para esta e as futuras gerações.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Novamente o carvão

Por: EVERTON PEREIRA
Em: Butiá Notícias (07-08/10/2011)

Em seus 48 anos de emancipação, comemorados no domingo dia 09, a história política, social e econômica de Butiá está intrinsicamente ligada a mineração do carvão que teve ao longo do tempo, altos e baixos. Por ter sido e ainda continuar sendo, muito importante para a economia não só da cidade, mas da região como um todo, a questão do carvão e de sua utilização na matriz energética nacional, é um debate perene. Mas um debate que infelizmente escapa do discurso técnico e econômico e acaba por resvalar para o campo político, mais especificamente o político partidário ou político eleitoral.

Desde que me conheço por gente, ouço políticos quase sempre em vésperas de eleições, levantar recorrentemente a pauta do carvão: poucos com a coragem de se posicionar contrários, a maioria favorável. A cada eleição, ou véspera destas, é sempre o mesmo assunto e quase sempre oriundo das mesmas fontes e personagem: abertura da Jacuí I, funcionamento da Leão II, fechamento iminente da CRM de Minas do Leão, interdição da CGTEE de São Jerônimo e até o fechamento da Copelmi ou a ida desta para outros municípios da região. Neste emaranhado de interesses, fica difícil de enxergar o argumento técnico e as questões de viabilidade econômica com os discursos demagógicos de políticos que utilizam-se da questão para levantar bandeiras ou por fogo nas bandeiras alheias. Nada mais certo. É da natureza da democracia a defesa de ideias e a disputa por sua hegemonia. Nada contra muito menos ao carvão, que na minha visão, como já escrevi neste espaço, é uma “monocultura” importante para o acúmulo de capital necessário para a diversificação econômica da região. Mas me refiro aqui é a recorrente demagogia e terrorismo com que o tema é tratado por ditas lideranças que querem no fundo distorcer a verdade a seu favor, fazendo a população e os trabalhadores da cadeia produtiva carvoeira de massa de manobra para seus interesses e projetos políticos individuais.

Novamente o carvão entra em pauta. Novamente próximo ao ano eleitoral que se aproxima. Novamente o debate é feito mais no campo político demagógico do que no campo técnico e econômico. Quero aqui como membro do Partido dos Trabalhadores afirmar que não há posição fechada do partido em relação ao carvão - assim como em todos outros partidos. Temos democracia interna! Nem a presidente Dilma, nem o governador Tarso Genro, nem o prefeito Paulo Machado são contrários ao carvão. Se há, vez por outras, objeções, é porque elas partem de cabeças pensantes que consideram a viabilidade econômica, ambiental e técnica dos empreendimentos de mineração e das termoelétricas. Não podemos, por mera paixão ou interesses eleitorais, manter ativas estruturas que ao invés de queimar carvão, queimam o dinheiro público. Acima dos interesses de um grupo, deve estar o interesse coletivo. Disseminar a desinformação é prejudicial não só ao carvão, mas a região. Sabemos que se em casos específicos há realmente a possibilidade, por questões técnicas e econômicas de se acabar com algumas estruturas defasadas, no geral, o carvão não sofre nenhum risco. Basta ver a expansão da mineração de empresas como a Copelmi e suas terceirizadas, por exemplo. No fim dessa história, a situação do carvão pode até não melhorar como era a expectativa de muitos. Mas também não irá piorar. Irá permanecer como está e muitos, mais uma vez, dirão que salvaram o carvão.

domingo, 2 de outubro de 2011

Irmão Sol, Irmã Lua


Por: EVERTON PEREIRA
Em: Butiá Notícias (30/09 - 01/10/2011)

Na próxima terça-feira, 04 de outubro, os católicos comemoram o dia de São Francisco de Assis, um dos santos mais cultuados do cristianismo. Francisco nasceu na cidade italiana de Assis no ano de 1182. Era filho de uma rica família de comerciantes da região e assim como outros líderes religiosos cristãos e nãos cristãos, optou pela pobreza e pela vida contemplativa em detrimento do conforto e dos prazeres da riqueza material. Tão logo ficou famoso por sua atitude radical para uma época em que o capitalismo e a burguesia iniciavam seu apogeu, teve muitos seguidores por pregar um retorno ao cristianismo primitivo – a base teológica dos ensinamentos de Jesus. Clara d’Offreducci, também de Assis foi uma das primeiras a seguir Francisco. Assim como ele, ela também vinha de uma família rica, de nobres, e deixou tudo para se dedicar a vida religiosa. São Francisco morreu em 1226 e Santa Clara, que fundou o ramo feminino da Ordem Franciscana, em 1253. Mas apesar da aparente distância cronológica, a mensagem dos dois permanece cada vez mais atual e relevante.

Para alguns pode parecer não haver lugar para os ensinamentos de Francisco em uma época que é justamente o avesso de tudo o que o Santo de Assis pregava. O culto ao consumo, ao ter, a ostentação e o desrespeito com a natureza são marcas de nossos dias. Como cegos procurando a luz na imensidão do paraíso, buscamos a paz e a harmonia onde elas menos estão. Clara e Francisco pregavam a humildade, o desapego e o amor a natureza como forma de encontrar a verdadeira felicidade. Uma felicidade que não tem condicionantes, que está sempre presente como o Deus que eles reverenciavam. Um Deus que está em tudo e em todos. Que se manifesta na pobreza, nos animais, em toda sua Criação. É de São Francisco, para mim, um dos mais belos textos religiosos de todos os tempos. Chama-se o Cântico das Criaturas, nele ele expressa todo seu amor a Deus e nele reconhece esta presença do Criador em todas Suas criaturas. Em uma parte, do Cântico, Francisco disse o seguinte: “Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Lua e as Estrelas. No céu as acendeste, claras, e preciosas e belas. Louvado sejas, ó meu Senhor, pelo irmão Vento e pelo Ar, e Nuvens, e Sereno, e todo o tempo, por quem dás às tuas criaturas o sustento. Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Água, que é tão útil e humilde, e preciosa e casta. Louvado sejas, ó meu Senhor, pelo irmão Fogo, pelo qual alumias a noite: e ele é belo, e jucundo, e robusto e forte. Louvado sejas, ó meu Senhor, pela nossa irmã a mãe Terra, que nos sustenta e governa, e produz variados frutos, com flores coloridas, e verduras”.

Mais do que santos católicos, Francisco e Clara, o Irmão Sol e a Irmã Lua, são exemplos de ética e respeito para com a natureza e para com o próximo, principalmente os mais pobres. Trazem uma mensagem que pode ser meditada e vivenciada por religiosos e por não religiosos. Uma mensagem de tolerância, de amor e de profunda união entre o homem e a natureza, local onde Deus “se esconde”. Em um mundo tão corrido, que dá tanto valor ao ter e não ao ser, é importante pensar pelo menos por alguns instantes nas palavras de Clara e Francisco.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Carvão e desenvolvimento regional



Por: EVERTON PEREIRA
Em: Butiá Notícias (09-10/09/2011)

Mais uma vez o carvão mineral prova ser uma fonte não só de energia elétrica, mas também de aglutinação e de discussões apaixonadas em nossa região. A polêmica em torno da ampliação, manutenção ou mesmo exclusão desta fonte de energia dos leilões energéticos do Ministério de Minas e Energia causou mais uma vez posicionamentos dos mais diferentes setores da sociedade. A história se repete e basicamente pode-se dividir as visões em três: de um lado os defensores da fonte energética a qualquer custo, de outro os “ambientalistas” contrários e críticos do carvão como fonte de energia “suja” e por fim aqueles que baseiam seu posicionamento em questões pessoais como, por exemplo, trabalhar direta ou indiretamente em empresas ligadas a extração do carvão ou então os que se dizem lesados com o carvão por residirem próximo as áreas mineradas.

Acredito, como cidadão e Secretário Municipal de Agricultura e Proteção ao Meio Ambiente, que uma quarta via ou posição deve ser considerada neste debate. Uma via que considere as demais e faça uma espécie de resumo, síntese e análise mais crítica e profunda da problemática carvão. Uma problemática que vai muito além de si mesma e que passa necessariamente não por discussões, por horas apaixonadas e extremadas, do simplesmente contra ou a favor, mas que parta de uma questão essencial para entender a história da Região Carbonífera: a Economia de Monocultura.

Assim como na história econômica nacional que teve e têm sua base na monocultura, inicialmente com o pau-brasil, passando pela cana-de-açúcar, o café, diversos grãos e o minério de ferro, por aqui a coisa não foi diferente. A própria geografia do local levou o nome de sua principal monocultura: carbonífera, oriunda do carvão. Atualmente se considerarmos a região como um todo, perceberemos a permanência da economia de monocultura como característica principal. Carvão, madeira e fumo formam as três matrizes econômicas das quais dependem nossa região. A questão, no meu entendimento, não é usar discursos radicais ou sectários, cegos. Jargões do tipo “fora aquilo” ou “fim a isto” não nos levará a um debate produtivo e resolutivo. Devemos sim utilizarmo-nos de estratégias produtivas que se volte para a diversificação econômica e para isso, mesmo parecendo contraditório, a monocultura pode, temporariamente, ser uma grande aliada.

Falo da criação de um Fundo Regional de Desenvolvimento Econômico e Social que vise justamente através da riqueza acumulada com as monoculturas, fomentar o desenvolvimento de outras matrizes econômicas estratégicas como a pecuária e a agricultura familiar, a pequena e média empresa e também destinar recursos para a preservação ambiental. Com a socialização e investimento destes recursos oriundos do carvão, da madeira e do cultivo do fumo nestes setores, poderemos a médio e longo prazo ampliar nossa capacidade produtiva e diversificar nossa base econômica regional. Com um fundo desta natureza poderemos fazer do limão, uma limonada. Transformando nossas hoje monoculturas - que por sua própria essência colocam em risco a economia local como um todo em épocas de crise - em apenas mais um elo da economia regional. Não precisando desta forma serem excluída mas sim contribuir, ao lado de outras atividades, para nosso tão sonhado desenvolvimento sustentável.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Páscoa



Por: Everton Pereira
Em: Butiá Notícias (22-23/04/2011)

Há uma metáfora dita por um amigo que carrego sempre comigo: “Às vezes é necessário emergir da piscina em que vivemos e olhar acima d’água. Ver o mundo lá fora e respirar o ar puro”. Envoltos em nossa cultura de excessos, de complicações e velocidade, acabamos por perder o foco. Esquecemos de buscar o avesso a tudo isto, que é a simplicidade. Datas como o Natal, a Páscoa e o Ano Novo, por exemplo, são excelentes para parar e refletir um pouco sobre a vida. Sobre a simplicidade perdida. Independente da religião que professamos ou não professamos.

Graças a este mundo das complicações e do consumismo, cada vez mais perde-se o elo com o real significado destas datas. O chocolate, os presentes e as festas ao invés de aproximar, nos distanciam da origem espiritual e reflexiva implícita ou mesmo explícitas nelas. Deixa-se de celebrar o significado, o simbólico, para se festejar o meramente material e mercadológico.

A Páscoa é uma data repleta de simbolismos que vão muito além dos ovos e coelhos, embora estes também sejam metáforas espirituais, mas cooptados pela lógica do consumo. Como uma festa comum a judeus e cristãos, a Páscoa trás em sua gênese o sentido de passagem. A passagem da escravidão para a liberdade no caso do judaísmo e a passagem da morte para a vida, representadas na crucificação e posterior ressurreição de Cristo.

Esta passagem em um sentido mais amplo pode ser compreendida como renascimento, mudança e transformação. Conceitos que podem ser trazidos para o nosso dia-a-dia. Para conquistarmos uma qualidade de vida melhor para nós, para a sociedade e para o Planeta. Nos momentos difíceis, de crise, experimentamos tanto no plano individual como coletivo uma experiência simbolizada pela Sexta-Feira Santa da paixão e morte. Por isso a Páscoa também carrega consigo o sentimento profundo de esperança. Esperança na vida, na derrota da morte, da crise. Esperança na ressurreição do Domingo de Páscoa.

Nossa relação com a Terra, nossa Grande Mãe, por exemplo, está impregnada do sentido da Páscoa. Vivemos em um momento onde literalmente estamos crucificando o Planeta a fim de exauri-lo de seus recursos naturais para saciar nossa sede de posse e de “progresso”. A esperança, o Domingo de Páscoa, reside na mudança de paradigmas. Na transformação de uma cultura do apego e da destruição para uma cultura da simplicidade e da harmonia.

Conta uma antiga história cristã que certa vez um jovem estava em um jardim e teve uma visão de Cristo e o perguntou: "Senhor, quando andavas pelos caminhos da Palestina, disseste que um dia voltarias. Está demorando tanto esta tua volta! Quando, finalmente, retornarás, de verdade, Senhor?”. Depois de uma pausa em silêncio, Cristo respondeu: "Meu irmão, quando para ti, minha presença no universo e na natureza for tão evidente quanto a luz que ilumina este jardim; quando minha presença sob a tua pele e no teu coração for tão real quanto a minha presença aqui e agora; quando não precisares pensar mais nela nem fazeres perguntas como esta que fizeste, então, meu irmão querido, eu terei retornado com toda a minha pompa e com toda a minha glória”. Eis a verdadeira ressurreição presente a cada instante.

Feliz Páscoa!

quinta-feira, 24 de março de 2011

Eduardo Galeano homenageia militantes da água



Ao receber o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Nacional de Cuyo, na Argentina, o escritor uruguaio dedicou o mesmo aos militantes da água “que em Mendoza e muitas outras comunidades do mundo lutam contra as mineradoras que a contaminam, as empresas florestais que a secam e contra todos os que traem a natureza, convertendo a água em um negócio e não um direito de todos”.

O escritor Eduardo Galeano recebeu terça-feira (22) o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Nacional de Cuyo, na Argentina, e dedicou o mesmo aos militantes da água “que em Mendoza e muitas outras comunidades do mundo lutam contra as mineradoras que a contaminam, as empresas florestais que a secam e contra todos os que traem a natureza, convertendo a água em um negócio e não um direito de todos”. “A água é e quer seguir sendo um direito de todos”, disse Galeano.

O ato ocorreu no Salão de Grau da Universidade, cuja transmissão teve que ser exibida em outras duas salas pela grande quantidade de assistentes, a grande maioria deles estudantes, que não economizaram aplausos para celebrar a presença e as palavras do novo doutor.

Em sua exposição, Galeano fez uma referência aos bicentenários que diferentes países da América Latina celebram nestes anos. “A independência segue sendo uma tarefa inconclusa e é necessário memória para completá-la”. Falando sobre a memória, Galeano exaltou o “primeiro país independente e livre da América, o Haiti”. Ainda que os Estados Unidos tenham proclamado sua independência em 1776, “os 645 mil escravos seguiram sendo escravos”. Em troca, em 1804, no Haiti foi proclamada a independência e se libertaram os escravos. Esse fato “resultou imperdoável” para os antigos dominadores que “exigiram ao Haiti o pagamento, durante um século e meio, da dívida francesa e o condenaram, até hoje, à solidão, o desprezo e a miséria”.

Citou o Paraguai como outro exemplo. “Esse país desobediente e sem dívida foi destruído em nome da liberdade de comércio”, em cujo “prontuário” figura “a imposição do ópio na China e a destruição de ateliers na Índia por parte da rainha Vitória, da Inglaterra”. No marco do rio da Prata, evocou as figuras de Mariano Moreno e Juan José Castelli, membros da Primeira Junta, qualificados como “muito perversos” por aqueles que “sequestraram a Revolução” e defenestrados do processo.

Galeano também fez uma menção especial ao educador venezuelano Simón Rodríguez “El Loco”, a quem definiu como “o mais audaz e adorável dos pensadores latino-americanos”, apesar de ser “um perdedor” devido às perseguições que sofreu, mas não por isso menos importante, porque “na memória dos perdedores, ali está a verdade”. Ele lembrou algumas das iniciativas “proibidíssimas” do professor de Simón Bolívar – no contexto da década de 1820 – como seu princípio de que “sem educação popular não haverá verdadeira sociedade”, ou sua audácia de “mesclar rapazes e moças na escola e o ensino de artes manuais com as tarefas intelectuais”.

Recordou a famosa frase de Rodríguez: “Imitadores! Copiem dos Estados Unidos e da Europa sua originalidade” – e se perguntou: “Por acaso não está vivo esse “Loco” nas ânsias e ações de independência de nossos povos”.

O escritor finalizou sua exposição com a evocação do uruguaio José Artigas, “a voz mais profunda destas terras” e “primeiro a realizar uma reforma agrária na América”. Recordou com ironia que os chefes da última ditadura militar do Uruguai, ao erigir um mausoléu em honra a Artigas, buscaram em vão alguma citação dele para colocar no monumento. “Não conseguiram, porque todas as suas frases eram subversivas, Então só registraram datas de batalhas. “Artigas também é um perdedor profundamente ativo”, finalizou.

Fonte: http://www.uncu.edu.ar/novedad/item/eduardo-galeano-palabra-y-memoria-de-america-latina

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

domingo, 20 de março de 2011

A dança de Shiva



Por EVERTON PEREIRA
Em Butiá Notícias (18-19/03/2011)

Na tradição hindu, Shiva é o deus da transformação. Na maioria das imagens é representado dançando, o que simboliza a eterna e constante mudança que estão sujeitos tanto o universo - a natureza - quanto a vida humana. A mudança, a transformação constante, a impermanência, são atributos de toda a existência. Tudo muda o tempo todo. As nuvens no céu, as estações do ano, o curso da história, nossas bilhões de células. Tudo se renova a cada segundo. Heráclito de Éfaso, filósofo grego, afirmava em 450 a.C. que tudo flui e que nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio. Neste caso não só o rio já teria mudado no segundo banho, por causa de sua eterna correnteza, mas o próprio homem também já não seria o mesmo do primeiro mergulho. Mudamos física, biológica e psicologicamente a cada momento.

Passamos por uma época singular na história da humanidade. As mudanças climáticas e a ocorrência regular de terremotos, enchentes e tsunamis nos depara com a fragilidade da vida humana e da civilização frente a força da natureza. Os cientistas dividem-se quanto a causa de tais fenômenos. Existem aqueles que acreditam ser estes fenômenos mudanças naturais e cíclicas. Que ocorre independente da influência da ação humana. Para estes, a poluição e a destruição causada pela sociedade causaria no máximo desequilíbrios locais, como por exemplo, as chuvas torrenciais e rotineiras em São Paulo. Já a outra corrente afirma que é o modo de vida do homem moderno, extremamente dependente dos recursos naturais e adepto cada vez mais do consumismo desenfreado que está causando desequilíbrios de toda ordem no meio ambiente.

A relevância da causa do problema é sem dúvida muito grande. Sabendo o que cria estas mudanças poderemos, quem sabe, se ainda houver tempo, trabalhar para reverter o quadro. Mas o fato é que se por culpa do homem ou por razões naturais, do próprio ciclo do planeta, estamos sofrendo cada vez mais com a consequência destas transformações e também com a angústia de não sabermos onde será a próxima destruição. Tsunami na Indonésia, terremoto na China, cheias semanais em São Paulo, o desabamento da região serrana do Rio, enchentes em São Lourenço do Sul e no Paraná e agora a catástrofe no Japão, parecem querer mostrar o quanto é frágil nosso modo de vida. Assim como o restante dos seres vivos, estamos também nós submetidos às leis da natureza.

Meditar sobre a impermanência, esta lei que rege como o deus hindu toda a existência, é algo que pode nos deixar mais tranquilos e mais aptos na busca de soluções. Todas as coisas são impermanentes. Tudo muda o tempo todo sem parar. Nada é igual nem por um instante. Nada é estável. Nossa mente, nosso corpo, nossa vida, nosso planeta mudam a toda hora. Nosso sofrimento não vem das mudanças, mas do desejo de que nada mude. A vida é movimento. É causa e efeito. O apego a estabilidade é que nos angustia, porque ela não existe. Compreender isto talvez nos faça enfrentar as mudanças da vida e do planeta com mais sabedoria e paciência. Somente em harmonia com a Terra é que poderemos pensar num futuro sustentável para nós e para todos os seres que habitam este mundo.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Comer é verbo e não substantivo: mercado ou soberania alimentar?



Em meados de fevereiro, o Banco Mundial comunicou que devido ao incremento nos preços da comida, o número de famintos estava se aproximando do 1 bilhão, quando os últimos dados da FAO falavam em 925 milhões. Outras 44 milhões de pessoas estão atravessando a fronteira da extrema pobreza porque suas débeis economias familiares foram desestabilizadas pelos preços elevados da comida. A situação é gravíssima, mas os preços seguem aumentando e, em uma economia globalizada, fenômenos climáticos locais – tempestades na África, geadas no México, secas na China, etc. – se convertem em um quebra-cabeças mundial. O artigo é de Vicent Boix.

Vicent Boix – Belianís

“Entre 2010 e 2011, os preços dos alimentos bateram recordes por sete meses consecutivos (...) Os aumentos nos preços dos produtos básicos se converteram em um fator desestabilizador da economia mundial, provocando tensões e distúrbios em vários países em desenvolvimento e, mais recentemente, na Argélia, Tunísia e Egito”. As afirmações são do Parlamento Europeu em uma resolução aprovada no dia 17 de fevereiro, que acrescentou: “...os altos preços dos alimentos lançam milhões de pessoas na insegurança alimentar e ameaçam a segurança alimentar mundial no longo prazo” (1).

Diante desta nova e trágica crise alimentar, repete-se uma e outra vez que a causa principal da alta dos preços é um desequilíbrio entre uma menor oferta e uma maior demanda em nível mundial, ou seja, cada vez se exigem mais cultivos e este ano os rendimentos foram piores. Mas, em um artigo anterior (2) indiquei que durante os anos 2003-2004 a situação em nível mundial quanto à quantidade de alimentos básicos como os cereais tinha sido pior que a de 2007 até agora. Contrariamente e tomando como referência o “Índice para os Preços dos Alimentos”, utilizado pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), os preços em 2003-2004 foram cerca de 50% inferiores em comparação com os da crise de 2008 e 100% inferiores em relação a janeiro de 2011.

Portanto, algo está manipulando e alterando os mercados e esse algo é a especulação que, segundo o Parlamento Europeu, é a culpada por 50% dos aumentos recentes. A própria FAO reconhece que só 2% dos contratos de futuros termina com a entrega da mercadoria e a maioria é negociada novamente, por isso “...esse tipo de contratos atraem um número cada vez maior de especuladores financeiros e investidores, já que seus lucros podem ser mais atrativos em relação a como se comportam os de ações e bônus” (3).

O problema não é de escassez ou de uma menor oferta de alimentos, como se diz sem parar, mas sim de alguns preços inflados por especuladores como constata a Eurocâmara em uma resolução anterior: “...na atualidade, o fornecimento total mundial de alimentos não é insuficiente (...) é mais a inacessibilidade dos mesmos e seus elevados preços os fatores que privam muitas pessoas da segurança alimentar” (4).

No entanto, a especulação, causadora das altas de preços, não é propriamente a raiz do problema. Ela deveria ser freada, mas os preços dos alimentos seguiriam sujeitos aos movimentos da oferta e da demanda, em uma época na qual cresce o interesse por agrocombustíveis e as grandes transnacionais controlam os diferentes níveis da cadeia alimentar.

Ou seja, enquanto as nações marginalizarem sua autossuficiência e a panaceia for comprar alimentos básicos no grande supermercado global, ao mesmo tempo em que se exporta para esse mercado matérias primas e cultivos exóticos (soja para pastagem, algodão, plátanos, flores, pinus, café, milho para etanol, etc.), a alimentação seguirá sujeita à dinâmica de um mercado manejado por certos polvos que pouco entendem de fome.

Não se diz com isso que podemos prescindir do mercado internacional, mas é vital sus regularização e, sobretudo, que as nações priorizem sua soberania alimentar entendida como a faculdade dos povos e dos agricultores de decidir suas políticas agrárias para garantir a segurança alimentar. Nos tempos que correm talvez seja uma heresia, mas curiosamente, no mesmo comunicado de imprensa em que a FAO há pouco anunciava que os preços dos alimentos tinham alcançado um recorde histórico, um economista desta instituição indicava que “o único fator alentador até o momento provém de um certo número de países nos quais – devido a boas colheitas – os preços domésticos de alguns alimentos básicos permanecem baixos comparando-se com os preços mundiais (5).

Dito de outra maneira, estes países poderão abastecer-se de comida barata porque eles mesmos a cultivam e não tem que adquiri-la nos “reinos” das multinacionais e dos fundos de investimento. Mas apesar deste dado, a tendência é mais a contrária. A liberalização anima o investimento e o deslocamento da produção para os países do Sul, cujas terras deixam de produzir alimentos para transformarem-se em propriedades onde brotam os agrocombustíveis, as pastagens e as sobremesas das nações abastadas. Essas terras se concentram nas mãos de ricos latifundiários e de investidores enquanto o camponês é expulso do campo. O resto de níveis da cadeia alimentar (sementes, intermediação, manufatura, etc) concentra-se em poucas mãos que ditam as condições, monopolizam os mercados, encarecem os alimentos do consumidor e arrastam o agricultor para a falência. A agricultura e a alimentação como sustentos básicos desaparecem em favor da visão mercantilista: o fim último não é garantir comida nem trabalho, mas sim fazer um bom negócio, não importando quem sucumba por isso.

Esse modelo baseado na exportação ao mercado internacional onde tudo é suscetível de ser cotizado, comprado ou vendido, não só é incoerente porque cria dependência alimentar do mercado exterior e seus preços, mas porque, além disso, cria dependência do petróleo para o transporte e porque a agricultura industrial necessita de abundantes agrotóxicos. Com as revoltas atuais em países como Líbia, novamente o petróleo se encarece o que aprofundará a crise dos alimentos como em 2008. Se consideramos que “mudança climática” e o “zênite do petróleo” são questões da atualidade, resulta ainda mais surrealista encomendar nossas calorias ao ouro negro.

O analgésico milagroso
Em meados de fevereiro, o Banco Mundial comunicava que devido ao incremento nos preços da comida, o número de famintos estava se aproximando do 1 bilhão, quando os últimos dados da FAO falavam em 925 (milhões). Outras 44 milhões de pessoas estão atravessando a fronteira da extrema pobreza porque suas débeis economias familiares foram desestabilizadas pelos preços elevados da comida (6)

A situação é gravíssima, mas os preços seguem aumentando e, em uma economia globalizada, os últimos fenômenos climáticos locais – tempestades na África, geadas no México, secas na China, etc. – se convertem em um quebra-cabeças mundial. Mas atenção, não se trata de um problema de escassez e os rugidos de 1 bilhão de estômagos vazios não são suficientes para que se dê o soco na mesa definitivo que ponha em seu devido lugar o mercado e os especuladores. Foram disparados muitos fogos de artifícios a título de boas intenções. Na recente reunião do G-20, por exemplo, falava-se de uma maior transparência nos mercados, limitação da especulação, melhor informação sobre os cultivos...Em resumo, nada que não tenha se ouvido antes e nada que não tenha resultado em nada, apesar de, no dia 17 de fevereiro, o Parlamento Europeus ter pedido ao G-20 “que se combata em escala internacional os abusos e manipulações dos preços agrícolas, dado que representam um perigo potencial para a segurança alimentar mundial”, além de reclamar “...a adoção de medidas dirigidas a abordar a excessiva volatilidade de preços...” (7).

As propostas de curto prazo implementadas para conter essa situação estão sendo tão injustas como ineficazes, porque se pretende solucionar o erro jogando no campo do mercado e acatando as suas regras em lugar de enfrentá-lo e frear seus desvarios. Nesta direção, por exemplo, a FAO reconheceu que desde julho de 2010 seu objetivo tem sido “acalmar os mercados” (8). Para isso o analgésico empregado por este organismo consistiu em bajular certos países que tinham restringido suas exportações – de cereais, sobretudo – para que as retomassem rapidamente e assim recuperassem o fluxo da oferta que amansaria os preços no mercado internacional.

Cabe registrar que estes países exportadores fecharam suas fronteiras, supostamente para garantir comida a seus cidadãos, primeiro porque as colheitas não foram boas, segundo porque a melhor maneira de não cair na crise de preços internacionais é com produções nacionais. Pois bem, algo que é minimamente normal e mesmo legítimo, foi considerado por muitos como a principal causa da crise de preços dos alimentos, porque sob a lógica do livre mercado estava se manipulando a oferta mundial dessa mercadoria chamada comida.

Mas enquanto estas nações são pressionadas a retomar as exportações e a não armazenar comida para suas populações, ninguém se atreve a denunciar a barbaridade de milhões de toneladas de milho estadunidense destinados à produção de etanol (14% do milho mundial) (9). Isso é assim porque sob o intocável prisma neoliberal dominante, os alimentos não têm porque alimentar estômagos, mas sim são mercadorias que inexoravelmente devem ser cotizadas no mercado, onde terão os preços condicionados, pois o fim último é aumentar os lucros e se estes crescem com os automóveis, que sigam roncando os estômagos.

Pão para hoje e fome para amanhã
Desde julho vem se tentando “acalmar os mercados” e o fracasso tem sido estrondoso. A restauração das exportações de alimentos não apagou o fogo que seguiu expandindo-se diante das notícias de colheitas menores e de fenômenos meteorológicos que só aumentaram a preocupação. Pediram-se concessões aos países exportadores que não aplacaram a crise e, no dia 26 de janeiro, de um modo um tanto desesperado, a FAO lançava um informe (10) com recomendações para que se apertasse o cinto, neste caso das nações importadoras, entre as quais se encontram majoritariamente os pobres. O pacote de medidas se centrava fundamentalmente em um único ponto: que os estados apliquem medidas econômicas e comerciais para reduzir o preço dos alimentos, como, por exemplo, subsídios diretos, empréstimos para o financiamento das exportações, incentivos fiscais, redução de impostos, redução de barreiras alfandegárias e de impostos para importações de comida, insumos, máquinas agrícolas, etc. Algumas destas recomendações – mais próximas à filosofia do FMI e do Banco Mundial – foram adotadas durante a crise de 2008 e alguns países já estão aplicando-as. A Guatemala, por exemplo, no início de fevereiro, anunciou a importação de milho com tarifa alfandegária zero para fazer frente à alta de preços (11).

Logicamente estas medidas debilitarão os cofres das nações que deixarão de arrecadar impostos ou subsidiarão diretamente alimentos com fundos dos orçamentos públicos, o que afetará no médio e largo prazo o financiamento de outros programas e serviços públicos. Para as nações que podem ter problemas com os orçamentos e a balança de pagamentos, a FAO recomenda, leia bem, que recorram aos programas do Banco Mundial e do FMI, o que dá na mesma, que se endividem mais para garantir os lucros brutais que o mercado e seus especuladores estão acumulando com a alta de preços.

Como pode se observar, e como foi repetido à saciedade neste artigo, ninguém fala nada sobre o agente causador da distorção, situado justamente entre os países que produzem e compram comida, que recebem pedidos de sacrifício e de adaptação aos caprichos do mercado, comprometendo inclusive suas próprias contas. As classes políticas destes países, vendo as imagens do Egito ou da Líbia, não se arriscam a sofrer problemas de falta de alimentos e bailam conforme a música.

Enquanto se esperam novos dados sobre os preços da comida, a situação começa a ser sumamente asfixiante e pode derivar em uma crise pior que a de 2008. Por isso, a verborreia grandiloquente tornou-se dispensável e urgem soluções reais e efetivas, porque para a humanidade comer é um verbo e não um substantivo pomposo e demagógico.

(*) Vicent Boix é escritor, autor do livro “El parque de las hamacas”, e editor de Ecologia Social da revista Belianís (Espanha).

domingo, 20 de fevereiro de 2011

A aldeia comum...



Por: LEONARDO BOFF

"Hoje nos encontramos numa fase nova na humanidade. Todos estamos regressando à Casa Comum, à Terra: os povos, as sociedades, as culturas e as religiões. Todos trocamos experiências e valores. Todos nos enriquecemos e nos completamos mutuamente. (...)

(...) Vamos rir, chorar e aprender. Aprender especialmente como casar Céu e Terra, vale dizer, como combinar o cotidiano com o surpreendente, a imanência opaca dos dias com a transcendência radiosa do espírito, a vida na plena liberdade com a morte simbolizada como um unir-se com os ancestrais, a felicidade discreta nesse mundo com a grande promessa na eternidade. E, ao final, teremos descoberto mil razões para viver mais e melhor, todos juntos, como uma grande família, na mesma Aldeia Comum, generosa e bela, o planeta Terra."


Casamento entre o céu e a terra. Salamandra, Rio de Janeiro, 2001.pg09

Que é ser de esquerda, hoje?



O perfil da esquerda sofreu uma mutação com o tempo, abrindo um leque
complexo de temáticas, antes, desapercebidas. Quem nunca mudou foi a
burguesia continental, que sempre opôs-se à distribuição de renda, à
desconcentração das terras e à socialização do poder político e
econômico.

Luiz Marques


A “modernidade” nasceu com o Renascimento, a Reforma e a conquista das
Américas. Encerrou-se com os horrores das duas Guerras Mundiais.
Começou então a gincana intelectual para achar uma expressão adequada
à sociedade que sobreveio. “Pós-industrial”, arriscou-se nos anos 50.
“Pós-moderna”, insinuou-se nos 80. “Era nova”, comemorou-se no auge da
globalização teleguiada pelo capital financeiro, nos 90. Esses termos
suscitaram discussões e confusões semânticas na academia e nos cafés,
o que esvaziou o potencial analítico de cada um. Mas ajudaram a
compreender a crise dos paradigmas modernos e suas negatividades
intrínsecas.

Que paradigmas? 1) a economia de mercado, que acelerou a urbanização
do ser humano, desembocando no neoliberalismo e na violência no
cotidiano das metrópoles; 2) o progresso nas ciências e nas técnicas
de manipulação da matéria não-viva (exploração da energia atômica) e
viva (descoberta do DNA, práticas de clonagem), com desenlaces
imprevisíveis, indo de uma possível hecatombe a servidões jamais
imaginadas; 3) os esforços seculares da opinião pública para controlar
o poder político, que não consideraram o fato de a mídia induzir em
larga escala o juízo da cidadania, através da radiofonia, da televisão
e dos jornais, que a propriedade cruzada agrava; 4) a conversão do
indivíduo em vértice social e moral da sociedade, que não levou em
conta que a massificação (heteronomia) corrói a livre consciência
(autonomia) e; 5) a preeminência do eurocentrismo na avaliação de
outras culturas, que conduziu ao colonialismo.

A lição a ser tirada, conforme o filósofo francês Pierre Fougeyrollas
(A crise dos paradigmas modernos e o novo pensamento, 2007), remete a
uma forma de pensar comprometida com a espécie e o planeta. “Cósmica”,
para reintegrar a humanidade no cosmos. “Lúdica”, para estampar a
criatividade poética e artística na abordagem do real. “Demiúrgica”,
para apropriar-se do existente e promover uma recriação de tudo, com
espírito ecumênico. “Interativa”, para subverter as hierarquias
clássicas do conhecimento, conectando intuições e conceitos, ideias e
imagens. Os eixos estratégicos do “novo pensamento” decorrem de um
olhar realista sobre o presente.

Esse programa traduz a luta dos movimentos sociais e ambientalistas
que reúnem-se nas edições do Fórum Social Mundial e, para 2012, já
preparam um rol de intervenções visando a Conferência das Nações
Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que marcará duas
décadas da Eco-92. O modelo de desenvolvimento ocidental (o modo de
produção e de consumo), baseado na dominação da natureza, sem nenhum
planejamento democrático, esgotou-se. Urge um mundo de fraternidade.
Como pregou São Francisco de Assis, ao celebrar o Irmão Sol (Fratello
Sole) e a Irmã Lua (Sorella Luna). Ou como indicou Marx, no terceiro
volume d'O Capital, ao definir o socialismo como a sociedade onde “os
produtores associados organizam racionalmente as suas trocas com a
natureza”. No caso, a emotiva prece cristã e o prognóstico ateu
coincidem.

Ecossocialismo

Publicado em 2002, o “Manifesto Ecossocialista Internacional” conjuga
o socialismo e o ecologismo, de maneira orgânica. “Na nossa visão, as
crises ecológicas e o colapso social estão relacionados e deveriam ser
encarados como manifestações diferentes das mesmas forças
estruturais”, lê-se no documento. Os desequilíbrios são o preço pago
pela incontrolável dinâmica da acumulação, da ânsia de rentabilidade
que não pode ser cancelada, da suposição de que os recursos naturais
são infinitos, do ideal de enriquecimento pessoal. “Cresça ou morra”,
é o lema do capitalismo. Seja “vencedor”, não “perdedor”, é o
imperativo do mercado. No entanto, a lógica do produtivismo é
insuportável. Orientada pelo valor de troca em detrimento do valor de
uso, a produção ilimitada causa danos ambientais de proporções
irreparáveis.

“Não se trata de opor os 'maus' capitalistas ecocidas aos 'bons'
capitalistas verdes: é o próprio sistema, ancorado na concorrência
impiedosa, nas exigências de lucro rápido, que é o destruidor do meio
ambiente”, sublinha Michael Löwy. Sob certo aspecto, a falsa
subdivisão apareceu no Protocolo de Kyoto (1997), que empregou dois
mecanismos na tentativa de conter as emissões de carbono na atmosfera,
o Cap and Trade: um teto máximo de emissões e um mercado de troca de
títulos de direito de emissão de carbono no hemisfério Sul, para
compensar a poluição provocada pelas nações industrializadas do Norte.
Com o que o carbono atmosférico virou uma commodity.Forjado nas leis
do mercado, o artifício para sensibilizar (a rigor, chantagear) o
“empreendorismo” fracassou e as emissões aumentaram três vezes mais. A
autonomização da economia não permite a sua subordinação a um controle
social, político ou ético-ambiental.

O resultado é a profusão de bens desnecessários, e a escassez daqueles
necessários às demandas sociais e ao equilíbrio ecológico. A política
econômica capitalista é alinhavada por valores monetários. Não se rege
por nenhuma consciência de espécie e tampouco planetária. Por isso,
acarreta riscos iminentes para o futuro. “Se a primeira contradição do
capitalismo se dá entre as forças produtivas e as relações de
produção, a segunda ocorre entre as forças produtivas e as condições
de produção (trabalhadores, espaço urbano, natureza)”, observou James
O'Connor, editor da revista norte-americana Capitalism, Nature and
Socialism. Hoje, não existe a contradição principal e a secundária,
elas apresentam-se imbricadas. O ecossocialismo pugna em ambas as
frentes.

O marxismo renovou-se ao encontrar a ecologia, a problemática de
gênero e raça. Não se confirmou a assertiva de que suas categorias
teóricas (os modos de produção e a formação econômico-social) seriam
demasiado esquemáticas para apreender a sobreposição das esferas
ideológica, política e econômica, e a articulação dos processos
ecológicos, tecnológicos e culturais que constituem os suportes de
sustentabilidade da produção. O marxismo revelou-se aberto às
oposições não-classistas e comedido em relação à noção de “progresso”.
Atento às forças destrutivas do capitalismo. Reside aí a contribuição
do ecologismo à práxismarxista. Em contrapartida, os movimentos
ecologistas que estenderam as mãos ao marxismo somaram, à denúncia do
produtivismo, a percepção crítica sobre as estruturas sócio-econômicas
que impulsionam a ganância.

Ecologia de mercado

Não raros, circunscrevem as mobilizações ecológicas aos temas
pontuais, sem contextualizá-las em uma totalidade significativa.
Apostam em um “capitalismo limpo”, que combine a “responsabilidade
social”, apregoada pelos que elidiram do Estado a obrigação de
políticas para erradicar a pobreza, e a “responsabilidade verde”,
destacada com ridículas medalhas ao mérito para as empresas que adotam
uma praça ou um canteiro de plantas. Abstêm-se de pressionar o
aparelho estatal para que tome iniciativas em prol dos setores sociais
desfavorecidos e do combalido meio ambiente. Propõem “ecotaxas” aos
infratores da legalidade, se tanto. Preocupam-se com os “excessos”,
não com o que rotiniza a predação. Tais inhapas são absorvidas pelo
status quo, passando a impressão que a ameaça sobre a Terra (Gaia, no
dizer de um pioneiro, José Lutzenberger) pode ser revertida com um
marketingde “varejo”, prescindindo das políticas de “atacado”.

Se essa parcela de ativistas exprime um discernimento precário ao
agir, o mesmo ocorre quando o movimento operário alia-se ao lobby da
indústria automobilística para forçar vantagens fiscais. O automóvel,
glamourizado e erotizado pela publicidade, é um símbolo do american
way of life, da incitação ao consumo individual. Calcula-se que 45% do
território de Los Angeles esteja reservado aos carros, incluindo a
área viária e os estacionamentos. Em São Paulo, chega-se a algo em
torno de 35%. Politicamente correto é investir no transporte coletivo
de qualidade, em faixas segregadas para ônibus, trens de superfície,
metrôs e bicicletas nas cidades para evitar os congestionamentos, bem
como pleitear ferrovias para desafogo dos pesados caminhões de carga
nas estradas, que engordam as estatísticas de acidentes com vítimas.
Tragédias, aliás, que não se resolvem em mesas redondas com as
associações de construtores de veículos automotivos e os consumidores
para estudar os dispositivos de freios, o raiado dos pneus, etc.
Resolvem-se com o participacionismo social, desde que este postule um
outro modo de vida, sob um horizonte civilizacional que supere o
fetichismo da mercadoria de rodas.

Os verdes tendem a abstrair da história a defesa ambiental, tecendo
uma responsabilização genérica, como se um ascensorista de elevador
tivesse idêntica parcela de envolvimento que o proprietário de uma
fábrica de celulose. “A culpa é do homem”, são as manchetes
jornalísticas nos cadernos especiaissobrea agenda do crescimento
sustentável. Vale salientar, contudo, que os ambientalistas europeus
fizeram a leitura correta das eleições presidenciais brasileiras.
Declararam apoio a Dilma Rousseff, no segundo turno, para que “o voto
libertário em Marina Silva paradoxalmente não se transformasse em uma
catástrofe para as mulheres, para os direitos humanos e para os
direitos da natureza... José Serra não é um socialdemocrata de
centro... Por trás dele, a direita mobiliza o que há de pior...
preconceitos sexistas, machistas e homofóbicos, junto com interesses
econômicos escusos e míopes”. Entre os signatários, Dany Cohn Bendit
(Alemanha), Alain Lipietz (França), Philippe Lamberts (Bélgica),
Monica Frassoni (Itália).

O bom senso (que veio do frio) não contagiou Marina que, ao invés de
dramatizar o momento em que decidia-se a continuidade do projeto
representado pelo governo Lula (avanços sociais, participação cidadã,
política externa soberana) ou a volta ao neoliberalismo
(privatizações, desemprego, corrupção, submissão à Alca e aos EUA),
optaram pela neutralidade. Com o que, dois terços dos eleitores do PV
penderam para o candidato do atraso, sem um gesto sequer da
dirigente-mor para impedir o deslizamento político. A pequenez tirou
do partido o papel de educador das massas, despolitizou as escolhas e
fez tábua rasa das duras batalhas contra as desigualdades sociais e
regionais. Ao contrário de situar os verdes nativos como uma pretensa
alternativa, o vergonhoso silêncio erigiu-os em tristes bengalas
auxiliares da reação nas urnas.

Esquerda versus Direita

Anthony Giddens (Para além da esquerda e da direita, 1994), mentor da
“Terceira Via”, tentou uma síntese superior entre o conservadorismo e
o socialismo, os quais teriam sido abatidos pela marcha da
globalização e a expansão da reflexividade social. O campo da
política, assim, haveria se alterado e cedido terreno aos paradoxos do
neoliberalismo. Sua sugestão para “repensar” o Welfare State (o Estado
de bem-estar social) foi acolhida pelo primeiro-ministro britânico, e
em nada diferenciou-se do receituário de Thatcher/Major. Tony Blair
manteve a legislação que flexibilizava e desregulamentava o contrato
de trabalho e, com cinismo, explicitou em um discurso a essência da
Third Way: “flexibilização sim, mas com fair play”. O livro do
sociólogo inglês mostra o quanto a esquerda desceu ao inferno no
período, rendendo-se ao Consenso de Washington.

Coube a Norberto Bobbio (Direita e esquerda, 1994) defender a
atualidade da díade política que remonta à Revolução Francesa. A
esquerda teria como epicentro o valor da “igualdade” (as pessoas são
mais iguais que desiguais, socialmente). A direita, o valor da
“liberdade” (as pessoas são mais desiguais que iguais, naturalmente).
A importância da reflexão, lançada numa época em que o capitalismo
triunfante trombeteava o “fim das ideologias”, esteve em (re)legitimar
a dualidade político-ideológica. O opúsculo do jurista italiano teve
200 mil exemplares vendidos e 19 traduções em um curto prazo. Como
Fênix, o pássaro da mitologia grega, a esquerda renascia depois de
assassinada pelas agências internacionais de notícias, que viram na
queda do Muro de Berlim (1989) a domesticação da utopia e o
desaparecimento da rebeldia e da esperança.

Mas o princípio da igualdade não exaure a conceituação sobre o que
significa externar uma atitude anticapitalista. No final do século 19,
ser de esquerda era lutar pelos direitos políticos e pelo sufrágio
universal. Não mais que isso. Ao longo do século 20, outras bandeiras
incorporaram-se ao (nosso) prontuário de lutas identitárias: as ações
pelos direitos civis e sociais, contra o colonialismo e pela
independência nacional, o combate à hegemonia imperial estadunidense,
a equanimidade de gênero, as afirmações étnicas, o respeito às
diferenças, a integração dos países latino-americanos, a inversão de
prioridades na administração pública e, ainda, a democracia
participativa, cuja inspiração acha-se condensada na máxima de que “a
emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”. A
partir dos anos 70, surgiu a questão ecológica.

O perfil da esquerda sofreu uma mutação com o tempo, abrindo um leque
complexo de temáticas, antes, desapercebidas. Quem nunca mudou foi a
burguesia continental, que sempre opôs-se à distribuição de renda, à
desconcentração das terras e à socialização do poder político e
econômico. Aquela, desde priscas eras, reitera uma contrariedade ao
pagamento de impostos. Não porque sejam regressivos ou recolhidos com
critérios tributários que penalizam as classes trabalhadoras. Mas
porque, com a ascensão de governos democrático-populares na América
Latina, os fundos públicos são redirecionados por políticas
republicanas à dignificação da vida da população. “Prefiro ser essa
metamorfose ambulante / Do que ter aquela velha opinião formada sobre
tudo”, cantava Raul Seixas. Isso, para preservar a coerência com a
“justiça social” no enfrentamento à “ordem estabelecida”.
Acrescente-se, no metafórico aniversário de 31 anos do PT.

Luiz Marques é professor de Ciência Política da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul (UFRGS).

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O Rio que desaba e o Código Florestal



Por EVERTON PEREIRA

Nunca se falou tanto em sustentabilidade. A palavra sai fácil da boca pra fora mesmo quando quem a profere não sabe bem o que quer dizer ou se sabe, utiliza para esconder interesses que nada tem a ver com a gênese do termo. Falar em sustentabilidade não só confere ares de intelectualidade e atualidade, como também rende dividendos por meio de incentivos fiscais aos novos ecocapitalistas de plantão. Desta forma o sistema se articula e rearticula fazendo de suas contradições fonte de quê? De mais capital.

Coloco isso para frisar que palavras são só palavras. A tragédia que o estado do Rio de Janeiro vive nos últimos dias não tem paralelo na história. Mas de fato, o que está sendo feito neste sentido? A mídia trata o caso como um grande Big Brother. Interessa-se mais pelas lágrimas das vítimas do na solução do problema. As causas são como sempre ignoradas e as conseqüências assumem o papel principal. Existir enquanto sociedade é por si só impactante ambientalmente. O que podemos sim é minimizar este impacto e aprender com os erros e não ignorá-los, pensando em questões imediatas sem lembrar que o Planeta não é só nosso, mas também das futuras gerações.

Movido pela ambição ruralista (ruralista difere de agricultores, designa uma classe econômica composta por latifundiários que possuí grande representatividade no meio político), o Código Florestal brasileiro está prestes a sofrer mudanças que caso se concretize, pode legalizar áreas de risco e ampliar a chance de tragédias como a sofrida pela população fluminense. O texto em tramitação no Congresso não considera topos de morros como áreas de preservação permanente e libera a construção de casas em encostas, justamente os locais mais afetados com as chuvas no Rio. O projeto reduz ainda para irrisórios 30 metros a área de preservação nas margens dos rios, o que a curto e médio prazo acabará com grande parte das matas ciliares e consequentemente com os próprios rios (e a água).

Que o Código deve ser revisto e alterado todo mundo concorda. Mas nos termos em que o deputado federal por São Paulo, Aldo Rebelo do PC do B está colocando é simplesmente inviável ambientalmente. Trata-se de um jogo de interesse político onde o deputado dito comunista aliou-se ao mais reacionário setor do parlamento nacional para realizar seu ambicioso sonho de ser o presidente da Câmara dos Deputados.

Devemos aproveitar o momento histórico e aprender com os erros. A tragédia do Rio de Janeiro deve servir de lição para que nos debrucemos sobre problemas graves como a especulação imobiliária, o crescimento desordenado e sem planejamento dos grandes centros urbanos e principalmente a relação das cidades com o ambiente natural. Quanto ao Código Florestal, deve sim haver mudanças, principalmente no que diz respeito a indenização dos produtores por proteger em suas propriedades áreas de preservação. Se estas áreas são de interesse coletivo, nada mais justo que a coletividade através do Estado, pague aos proprietários para que protejam estas áreas, tão importante para a própria atividade agropastoril. O que não podemos é ceder a pressão ruralista, como o fez Aldo Rebelo com a desculpa de que devemos produzir mais alimentos para matar a fome dos pobres e esquecer que a natureza tarda, mas dá o troco pelos nossos erros.

sábado, 27 de novembro de 2010

POR UMA ALIMENTAÇÃO MAIS SAUDÁVEL



O VENENO NOSSO DE CADA DIA

Publicado no Butiá Notícias Edição 627 de 26 e 27 de novembro de 2010.

O Brasil registra anualmente cerca de 20 mil casos de câncer de estômago, a maioria é consequente de alimentos contaminados. Desde 20 mil, 12 mil vão a óbito. Estes números demonstram aquilo que toda a população já vem percebendo há algum tempo. Qual de nós não conhece alguém que morreu ou está sofrendo de câncer de estômago nos últimos anos? Sem falar de outros tipos de câncer que também podem ser causados pela ingestão de alimentos contaminados ou que contenham substâncias cancerígenas e tóxicas. O mal já não é só o que sai, mas também o que entra na boca do homem.

Nosso país desde 2007 se transformou no maior consumidor mundial de venenos agrícolas, os chamados agrotóxicos. Somente na última safra o oligopólio transnacional que produz estes “venenos alimentares” venderam um bilhão de litros de agrotóxicos. Isso representa nada menos que 6 litros de veneno por pessoa ou 150 litros por hectare cultivado. Estes indicadores não têm comparativos com nenhum outro país no mundo. É um pequeno número de empresas como a Bayer, a Basf, Syngenta, Monsanto, Du Pont e a Shell Química que controlam e estimulam o comércio mundial destes produtos e o Brasil é o melhor e maior cliente.

Assim como os transgênicos recentemente, os venenos agrícolas foram o “grande achado” da agricultura nos anos 70 com a chamada “Revolução Verde”. Ambos prometiam o fim da fome no mundo, mas nem um, nem o outro realizaram tal feito, pelo contrário. A produção de alimentos apesar de ter aumentando, continua sendo controlada por um pequeno grupo de empresas. Logo, o problema da fome no mundo não é a quantidade de alimentos produzidos, mas a má distribuição destes alimentos.
Outro problema que potencializa o efeito nocivo dos chamados defensivos agrícola é a pulverização aérea. O Brasil possui a terceira maior frota de aviões de pulverização agrícola. Esta prática é a mais contaminadora e comprometedora para a população.

Além do aumento dos casos de câncer, o uso cada vez maior e sem controle de agrotóxicos vem aumentando o número de abortos em populações que vivem próximas a grandes lavouras que utilizam estes produtos. Somente em 2010 a ANVISA detectou e destruiu cerca de 500 mil litros de venenos adulterados por grandes empresas. A falsificação da fórmula autorizada deixa o veneno mais potente, criando uma falsa sensação de rendimento para o agricultor que paga com sua saúde o preço de tal prática, além de contaminar ainda mais o conjunto do meio ambiente e dos consumidores.

São necessárias políticas públicas que pensem seriamente neste grave problema. É necessário proibir certos agrotóxicos, acabar com a aviação agrícola, dar fim a propaganda destes venenos e responsabilizar as empresas produtoras por todas as consequências ambientais e na saúde da população.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

SIGA

O QUE É O SIGA?

Publicado no Butiá Notícias Edição 610 de 30 de julho de 2010

A função da República é garantir liberdade, igualdade e bem estar aos seus cidadãos. Em uma República Federativa como a nossa ou como a nossa deveria ser, já que leva este nome, cada ente federado (os estados) deve ter o máximo de autonomia frente a União que é o conjunto destes estados. O municipalismo é a expressão mais autêntica do federalismo, pois parte do princípio de que quanto mais descentralizado e local, mais legítimo é o poder. Quanto mais poder e autonomia os municípios possuírem, mais ágil e eficaz será o Estado (a coisa pública). E afinal de contas, o país nada mais é do que a soma de seus municípios. É no município em que tudo acontece e por isso é legítimo seu direito de reivindicar mais poder e autonomia frente ao governo central. Várias foram as ações que buscam dar mais autonomia aos municípios através de políticas públicas no último período, como, por exemplo, a gestão do Bolsa Família e em tempos atrás, com a última Constituição, a municipalização da saúde. Esta autonomia é claro vem sempre acompanhada de novas responsabilidades.

Na área do meio ambiente, a criação do Sistema Integrado de Gestão Ambiental (SIGA) é o exemplo mais importante do estímulo ao apoderamento municipal. O SIGA não se trata de uma política do atual governo do estado, já existe há várias gestões e permanece como o principal instrumento de autonomia dos municípios na gestão de seu meio ambiente e na proteção de seus ecossistemas naturais. O SIGA nada mais é do que a municipalização do meio ambiente. Mantendo a função da FEPAM (órgão do governo estadual) nos empreendimentos de grande porte.

Entre todos os municípios brasileiros que já realizam a gestão local do meio ambiente, cerca de 80% deles estão no Rio Grande do Sul, somando quase 300 municípios gaúchos com o SIGA implantado. A habilitação ao SIGA é dada pela Secretaria e Conselho Estadual do Meio Ambiente após o preenchimento de vários requisitos por parte do município. Em Butiá a atual administração está neste caminho, com os projetos já em discussão na Câmara de Vereadores e com previsão do cumprimento do prazo estabelecido pelo CONSEMA, que é dezembro de 2010. Mas nossa intenção não é somente cumprir prazos e exigências legais. Acreditamos que a municipalização do meio ambiente trará retorno de todas as ordens a nossa cidade. Aliando desenvolvimento econômico com respeito ao meio ambiente.

Com o SIGA, taxas, impostos e multas que hoje vão parar nos cofres do governo do estado, ficarão em Butiá. Os valores destes tributos também serão reduzidos por mais da metade. O município terá a garantia que a fiscalização será bem feita e rápida, já que os fiscais serão dos quadros da Prefeitura. A agilidade dos processos será bem maior do que ocorre hoje na FEPAM. Com a convergência de menos burocracia, mais agilidade, mais eficiência e custos bem menores, a atração de indústrias tenderá também a aumentar. Logo, lutar pelo SIGA é lutar não só pelo meio ambiente, mas também por tornar nossa cidade mais independente e autônoma frente aos governos estadual e federal.

sábado, 3 de julho de 2010

Consumismo




ESTADO DO MUNDO 2010

Publicado no Butiá Notícias Edição 606 de 02 e 03 de julho de 2010

O Instituto Akatu e o WWI (World Watch Institute) lançaram, na quarta-feira 30, a versão em português do relatório Estado do Mundo 2010: Transformando Culturas - Do Consumismo à Sustentabilidade, publicado em mais de 30 idiomas. O estudo é produzido, anualmente, há 28 anos, pelo WWI e faz um balanço sobre as principais questões ambientais. De acordo com o relatório a cultura normalizou o consumismo e passou a relacionar as noções de bem-estar e felicidade aos produtos que compramos e à quantidade deles que podemos adquirir. Eric Assadourian, relator do documento disse no lançamento que “o consumo exagerado está nos levando à insegurança ecológica e precisamos aprender a viver com o suficiente. A cultura é maleável e pode ser mudada intencionalmente”.

Entre as informações trazidas pelo relatório está o fato de que já consumimos 30% acima da capacidade de reposição da Terra. Diariamente, retiramos do planeta, em termos de recursos naturais, o equivalente a 112 prédios do Empire States, que tem 105 andares. Apesar da eficiência na utilização de materiais ter aumentado cerca de 30%, o uso de recursos naturais aumentou em 50% nas últimas três décadas. Cerca de um sexto da população mundial é responsável por quase 80% do que é consumido mundialmente em termos de bens e serviços. Hoje, 5 bilhões de pessoas ainda consomem um décimo do que compra um europeu médio. A desigualdade é um problema mundial.

O estudo comprova o poder da educação e da mídia como ferramentas de transformação da cultura. As dimensões é que assustam. Em 2006, pessoas no mundo todo gastaram US$ 30,5 trilhões em bens e serviços. Em 1996, esse número foi de US$ 23,9 trilhões e em 1960 a humanidade consumiu o equivalente a US$ 4,9 trilhões. Só em 2008, pessoas no mundo todo compraram 68 milhões de veículos, 85 milhões de geladeiras, 297 milhões de computadores e 1,2 bilhão de celulares. Parte desse aumento é resultante do crescimento populacional, mas o número de seres humanos cresceu apenas a uma razão de 2,2 entre 1960 e 2006.

O relatório é bastante claro: a maior contradição do sistema capitalista na sua atual fase de desenvolvimento são as questões ambientais, mais especificamente o consumismo. O documento demonstra que a causa do problema não é o aumento da população, pelo contrário, há uma enorme desigualdade social em termos mundiais. O fator determinante é que a ideologia capitalista, chamada no documento de “cultura”, induz a um comportamento consumista e materialista. Mais uma vez fica claro o papel fundamental que a educação possui para o futuro da humanidade e a força que políticas de distribuição de renda possui para contribuir na reversão deste quadro, democratizando o consumo.

sábado, 12 de junho de 2010

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Aprendendo com a natureza...


Publicado no Butiá Notícias Edição 602 de 04 e 05 de junho de 2010

OS CARAMUJOS E O HOMEM


Mesmo não sendo um profissional das ciências biológicas, gosto de observar como a natureza se move. Um olhar leigo sobre o assunto talvez o deixe mais poético e contemplativo, assim como não saber tocar um instrumento torna a música algo “estranho” e distante e por isso mesmo fascinante. A ignorância às vezes é útil.

Assistindo um destes documentários que pouca gente vê, na TV Escola por volta da uma da manhã, tive a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre o mundo dos caramujos. Sem exceções, uma das principais características das “leis da natureza” é a busca pela economia. E no “reino dos planorbídeos”, ou dos caramujos, não poderia ser diferente.

No extenso período de evolução da vida na Terra que já dura mais de 4 bilhões de anos, os caramujos, como tudo que existe eram originários da água. Quando os mares baixaram e surgiram os continentes, grandes partes das espécies de caramujos ficaram na terra. Mas trazendo em sua carga genética uma herança dos tempos oceânicos.

Necessitam de umidade constante como uma lembrança remota de quando viviam embaixo d’água. Por isso saem para alimentar-se a noite. O calor do sol resseca-os fazendo ter que queimar energia para manter a umidade. Durante o dia ficam “encaramujados” dentro de suas conchas mantendo o corpo umedecido com pouca luminosidade. Á noite, as plantas, muitas delas de nossos jardins floridos, são alvo de sua fome.

Há milhares de características destes e de outros animais que analisados a partir de seus microcosmos são fascinantes. Dando um ar de sacralidade e harmonia entre o mundo vivo. Mas falei dos caramujos pensando na economicidade que eles se habituaram para manter seus corpos o mais úmidos possível.

Quanto mais o tempo passa, mais nos distanciamos enquanto espécie da lógica do mundo natural. Ao contrário da natureza, nossa civilização é construída cada vez mais sob os pilares do consumo e do desperdício de energia. Se por um lado o tão sonhado desenvolvimento econômico melhora as condições materiais de vida das pessoas, ele literalmente consome cada vez mais o Planeta. Pensar com sustentabilidade é buscar um equilíbrio entre o desejo humano e as leis da vida.

A Terra tem cerca de 5 bilhões de anos, quase um terço da idade do universo. Habitamos o planeta a menos de um por cento de sua idade geológica. O Planeta não necessita de nossa existência para continuar a existir por mais alguns bilhões de anos. Pelo contrário, nós é que necessitamos dele para continuar a existirmos enquanto espécie. No mínimo o que temos que fazer é copiar sua sabedoria eterna presente também nos caramujos.

sábado, 22 de maio de 2010

PARTICIPE!!!


MAIORES INFORMAÇÕES www.portalbutia.com.br ou www.butia.rs.gov.br

Bicicleta: deslocamento sustentável


Publicado no Butiá Notícias Edição 600 de 21 e 22 de maio de 2010

BICICLETA: DESLOCAMENTO SUSTENTÁVEL

Observando os noticiários sobre a economia do país, tem-se a impressão de que o sucesso financeiro da nação se mede pelos números de automóveis vendidos e fabricados no mercado interno. Se de um lado este quadro torna claro que o poder aquisitivo do brasileiro vem evoluindo durante a atual administração federal e que isso significa desenvolvimento, por outro, a evolução nas vendas de automóveis indica um futuro colapso no sistema rodoviário brasileiro e planetário a médio prazo.
O uso da bicicleta como alternativa ao transporte automotivo é hábito cultural de países como a Dinamarca, Alemanha e Noruega. Pedalar não significa “pertencer a uma classe inferior” como por aqui se crê e sim, ser inteligente o bastante para economizar dinheiro, realizar uma atividade física e não poluir o meio ambiente, tudo de uma só vez. Andar de bicicleta é um meio de transporte não poluente e uma alternativa necessária contra o sedentarismo e doenças como pressão alta e depressão (por liberar endorfina) e pela poluição ambiental produzida por uma civilização que acumula diariamente toneladas de CO2 na atmosfera.
O problema é que o modo de produção capitalista cria, como já dizia Marx há mais de cem anos atrás, os “fetiches”, que valorizam determinada mercadoria pelo valor simbólico e não de produção que ela possui. Pagamos por uma idéia. Ao longo das últimas décadas a propriedade de carro vem se democratizando no Brasil e muito incentivada por uma espécie de “culto ao automóvel”. Mais que um meio de transporte contra o calor do sol e a chuva no inverno, o carro tornou-se objeto de desejo e de poder de grande parte da sociedade. É hoje sinal de status e posição social.
Por outro lado, a precariedade do transporte público e coletivo, alternativas mais “ecológicas”, desestimula a utilização desta modalidade de deslocamento principalmente por aqueles que possuem carros. A única saída racional e sustentável é o investimento progressivo em transportes não poluentes como a bicicleta e também nos transportes coletivos e de combustíveis mais sustentáveis. Não existe mais espaço físico nas grandes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Cidade do México para ampliação ou mesmo melhoria em vias de grande fluxo de veículos. É comum no trânsito, que o número de carros com uma só pessoa seja superior ao número de carros com alguém mais do que o motorista.
A ampliação do número de pessoas, substituindo o transporte de curta distância para a bicicleta em detrimento do automóvel, deve ser um dos focos de ações de educação ambiental. Um passeio ciclístico como o que o governo municipal está organizando para o dia 06 de junho é um passo simbólico de grande importância no sentindo de conscientizar a comunidade de problemas que estão pedindo soluções urgentes para questões como o futuro do petróleo, dos transportes e de um homem cada vez mais sedentário.